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Empresária percorre o mundo caçando investidores para os games brasileiros
O mercado brasileiro de games vive um momento de expansão sem precedentes. Nos últimos cinco anos, o setor cresceu 600% no país, um dos poucos segmentos da economia nacional com um salto tão expressivo nesse período. Apesar do talento reconhecido de desenvolvedores, artistas, programadores e músicos brasileiros, um obstáculo histórico sempre travou o crescimento do setor: a ausência de investidores especializados em jogos dentro do próprio Brasil e, até mesmo, na América Latina como um todo. É justamente nessa lacuna que a Indie Hero construiu sua trajetória, sob a liderança da empresária Juliana Silva Brito, vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Negócios Internacionais.
Formada em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio e pela TU Braunschweig, na Alemanha, Juliana também é CEO da GameJamPlus, considerada a maior maratona competitiva de desenvolvimento de jogos do mundo. À frente das duas iniciativas, ela dedica sua atuação a um propósito específico: democratizar o acesso à indústria de desenvolvimento de jogos e fortalecer economias locais por meio da criação de oportunidades para talentos que, muitas vezes, não sabem como transformar um bom jogo em um negócio viável.
“Estamos nessa jornada há mais de seis anos e já alcançamos um faturamento interessante. Também trouxemos vários investidores internacionais para o mercado brasileiro e já mentoramos mais de 600 estúdios. Receber este prêmio é especialmente importante por sermos uma empresa de tecnologia liderada por uma mulher e com atuação internacional. Esse tipo de reconhecimento fortalece bastante a nossa marca e será muito importante para o nosso portfólio, além de consolidar a empresa com o selo do Sebrae”, avalia Juliana.
Do Shark Tank a uma empresa que já passou por mais de mil estúdios
A história da Indie Hero começou de um jeito pouco convencional. Em 2021, o hoje sócio de Juliana, Ian Rochlin, participou do Shark Tank Brasil e conseguiu fechar investimento para uma empresa que, na prática, ainda não existia. Diante do desafio, ele recorreu a Juliana. “Ele foi no Shark Tank, vendeu uma empresa, me ligou e falou: ‘vendi aqui para os investidores, só que eu preciso que você construa ela comigo’. Eu falei: ‘beleza, vamos’”, relembra, bem-humorada.
Do encontro entre os dois nasceu uma aceleradora dedicada a resolver um problema recorrente entre desenvolvedores independentes: a dificuldade de transformar talento técnico em negócio sustentável. “O Brasil tem excelentes desenvolvedores, artistas, programadores e músicos de jogos. Só que, muitas vezes, eles criam o jogo que querem fazer sem pensar antes na viabilidade daquele nicho, se está em alta, se tem procura, se vende bem. Muitos estúdios passam um, dois, três anos desenvolvendo um jogo e, quando lançam, ninguém compra, porque criaram um produto que o mercado não pedia”, explica.
Para driblar esse problema, a Indie Hero trabalha com o conceito japonês de ikigai aplicado aos jogos: a interseção entre o que o estúdio tem capacidade técnica de produzir, o que gosta de jogar, os recursos humanos e financeiros disponíveis e o que o mercado realmente deseja. A partir desse cruzamento, a aceleradora orienta os estúdios na definição do nicho, na captação de recursos junto a investidores e publishers – as empresas responsáveis por publicar os jogos – e, posteriormente, nas estratégias de lançamento.
Parte desse trabalho envolve compreender o funcionamento da Steam, maior loja de venda de jogos do mundo. “A Steam tem seu próprio algoritmo, assim como o Instagram. A gente precisa entender como ele funciona, escolher as tags certas, fazer testes A/B nas imagens de divulgação para que as pessoas cliquem”, detalha Juliana. A aceleradora também atua em frentes que raramente entram no radar dos desenvolvedores, como a parte jurídica e tributária dos negócios. “Ninguém pensa em como pagar imposto depois que o jogo vende, ou como proteger a propriedade intelectual. As pessoas se juntam para fazer um jogo e não assinam contrato nenhum. A gente ensina tudo isso”, pondera.
Desde 2021, mais de mil empresas já passaram por algum dos programas da Indie Hero, seja como aceleração própria, seja por meio de contratos firmados com instituições parceiras, entre outros. A comunidade de desenvolvedores conectados à empresa, reunida em um servidor no Discord, já soma cerca de 4 mil pessoas, espalhadas por pelo menos 20 estados brasileiros – com destaque para polos como Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília e Manaus, este último impulsionado pela presença de empresas da Zona Franca que também desenvolvem jogos.
A ponte entre o Brasil e os investidores do mundo
Outra frente central do trabalho de Juliana é a captação internacional de investidores, tarefa que a leva com frequência a eventos de games nos Estados Unidos, na Europa e, principalmente, no Japão – país onde ela estava no momento desta entrevista, a caminho de outras participações como palestrante na Malásia, na Indonésia e na Rússia. “O Brasil não tem investidor de jogo brasileiro. Praticamente todos são internacionais. Não existe um fundo, não existe um investidor-anjo especializado em games na América Latina inteira. Por isso preciso ir a esses eventos, conhecer esses investidores e convidá-los a vir ao Brasil conhecer nossos estúdios”, explica.
O trabalho tem gerado resultados crescentes. No ano passado, Juliana trouxe 12 investidores internacionais para conhecer estúdios brasileiros; a meta para o próximo ano é alcançar cerca de 30. Segundo ela, o reconhecimento internacional dos jogos brasileiros vem se consolidando aos poucos. “Estamos bem vistos aqui fora. Nos últimos cinco anos, o Brasil conseguiu lançar alguns sucessos, como o jogo Mullet MadJack, publicado pela Epopeia Games, lá do Rio Grande do Sul. Outro dia, conversando com uma publisher aqui no Japão, ela me disse que o jogo de melhor receita do catálogo dela, que já publicou mais de 50 títulos em dez anos de mercado, foi justamente um jogo brasileiro”, conta. Para Juliana, esse tipo de resultado cria um efeito cascata. “É lento, mas a cada publisher que fecha negócio com o Brasil e tem um bom resultado, ela conta para outra, e cada vez mais investidores captam jogos de qualidade no Brasil.
Entre as histórias que mais orgulham a empresária está a do estúdio brasiliense Crit42, comandado por Eduardo de Azevedo, que participou da primeira aceleração feita pela Indie Hero logo após o Shark Tank. “Eles começaram com duas pessoas e hoje têm 15 trabalhando no estúdio, já lançaram mais de dez jogos. Nunca fecharam com uma publisher ou investidor, mas aprenderam tão bem o conceito de self-publishing que passaram a se autopublicar. Para mim, isso é ainda melhor do que fechar com um investidor, porque eles retêm o conhecimento e constroem a própria comunidade, em vez de depender da comunidade de terceiros”, avalia.
Faturamento diversificado
Ao longo de quase seis anos de atuação, a Indie Hero já movimentou cerca de R$ 3 milhões, ainda dentro da primeira faixa de tributação para pequenas empresas. Para Juliana, o número representa uma conquista relevante dentro de um cenário de empreendedorismo desafiador. “Existem muito poucas empresas que conseguem chegar nesse patamar num ambiente tão difícil quanto o brasileiro. Tenho bastante orgulho disso”, afirma.

O faturamento vem de fontes diversificadas: contratos de aceleração e incubação firmados com organizações e empresas, comissões pela intermediação entre investidores e estúdios, eventos próprios e cursos online. A empresa atua nos formatos B2B (entre empresas), B2C (direto ao consumidor) e B2G (com o setor público). “A gente fala muito que empreendedor precisa focar, mas só vale a pena focar quando você já sabe qual é o seu produto ‘vaca leiteira’, aquele que vende fácil e de forma recorrente. A gente ainda não encontrou o nosso. O produto que mais vendeu ano passado não foi o mesmo do ano retrasado, e assim por diante. Por isso, seguimos diversificando”, explica.
Mais de dez anos de relação com o Sebrae
A ligação de Juliana com o Sebrae antecede em muito a criação da Indie Hero. Ao longo de mais de dez anos de trajetória empresarial, ela já atuou como incubada, mentora e palestrante da instituição, além de ter sido mentora do Empretec antes mesmo de cursá-lo. “O Sebrae está presente na minha vida empreendedora há mais de dez anos. Foi uma das primeiras instituições que me ajudou quando eu estava começando”, relembra.
Já com a Indie Hero, a relação se deu de forma peculiar. A empresa nunca participou como beneficiária direta de um programa do Sebrae, mas foi contratada para executar trilhas de capacitação voltadas a desenvolvedores de jogos em estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Ceará e Manaus. Sobre o prêmio recebido na categoria Negócios Internacionais, Juliana destaca a relevância simbólica do reconhecimento. “Foi uma surpresa muito agradável, ainda mais sendo uma empresa da indústria criativa, que não é uma fintech nem um negócio mais tecnológico, desses que o mercado costuma valorizar mais. Cada prêmio que a gente ganha valida o negócio, ajuda até a conseguir clientes”, avalia.
Próximo passo: uma sede nos Estados Unidos
Olhando para o futuro, os planos da Indie Hero incluem se tornar, eventualmente, uma publisher própria, lançando diretamente os jogos que acelera. Para viabilizar esse movimento, a empresa estuda abrir uma subsidiária em Delaware, nos Estados Unidos. A decisão está diretamente ligada a uma questão tributária que hoje reduz significativamente a receita dos desenvolvedores brasileiros. Como o Brasil não possui acordo de livre comércio com os Estados Unidos, os jogos vendidos por meio da Steam – que já retém 30% do valor de cada venda – acabam sendo tributados na alíquota máxima quando o restante do valor retorna ao criador, e sofrem nova tributação ao ingressar no Brasil. Ao final desse processo, o desenvolvedor brasileiro fica com cerca de 45% do valor total do jogo. “Abrindo uma empresa em Delaware, conseguimos entrar numa tributação mínima, de cerca de 5% sobre o lucro. Faz muito mais sentido para a nossa operação internacional”, explica Juliana.
Com uma trajetória construída na conexão entre talento brasileiro e capital internacional, Juliana resume o momento da Indie Hero como parte de um movimento maior de consolidação do Brasil no mapa mundial dos games. “A gente está aos poucos mostrando que o Brasil produz jogos de qualidade e que vale a pena investir aqui. Cada estúdio que cresce, cada investidor que volta para fechar um novo negócio, é um passo a mais nessa construção”, conclui.
Serviço – Indie Hero
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