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Tentativa de caos às vésperas da eleição fracassa: Celina consegue acordo e garante que a população do DF não fique sem ônibus
Celina Leão acusa movimento de ter motivação político-eleitoral e aponta ligações da direção sindical com adversários; paralisação marcada para esta segunda-feira foi suspensa após negociação intermediada pelo Governo do Distrito Federal
Brasília acordou nesta segunda-feira (28) com ônibus circulando normalmente e milhares de trabalhadores, estudantes, pacientes e idosos livres de uma paralisação que ameaçava transformar a última semana antes das eleições em um caos no transporte público.
A greve geral dos rodoviários estava marcada para começar à meia-noite.
Não começou.
Depois de um domingo de tensão, disputa judicial, acusações políticas e negociações, empresas e trabalhadores chegaram a um acordo durante reunião intermediada pela Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) e pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal.
A governadora Celina Leão (PP) comemorou o desfecho.
Mas o episódio deixou uma pergunta política no ar: por que uma greve capaz de atingir centenas de milhares de passageiros foi marcada justamente para a segunda-feira anterior às eleições de 4 de outubro?
Celina e o GDF dizem enxergar motivação político-eleitoral no movimento.
O sindicato sustenta que a paralisação decorria de uma negociação trabalhista que já se arrastava havia meses.
No fim, independentemente da guerra de versões, quem escapou do prejuízo foi a população.
Uma greve na pior semana possível
O calendário tornou o movimento especialmente explosivo.
A greve estava prevista para começar nesta segunda-feira, 28 de setembro.
O primeiro turno acontece no domingo, 4 de outubro.
Ou seja: a paralisação atingiria o sistema de transporte coletivo justamente durante a última e mais intensa semana da campanha eleitoral.
E não se trataria de um problema pequeno.
Milhares de moradores do DF dependem diariamente dos ônibus para chegar ao trabalho, às escolas, universidades, hospitais e demais serviços.
As próprias empresas concessionárias advertiram que trabalhadores, estudantes, pacientes e idosos seriam diretamente afetados.
O GDF também recebeu solicitação do Tribunal Regional Eleitoral para garantir a operação do transporte durante o período eleitoral.
Foi nesse contexto que a disputa trabalhista rapidamente ganhou contornos políticos.
Celina apontou motivação eleitoral
Celina elevou o tom durante o fim de semana.
A governadora afirmou que considerava impossível dissociar a paralisação do momento eleitoral e acusou setores ligados ao PT de tentar transformar o transporte coletivo em instrumento político.
O Governo do Distrito Federal divulgou posicionamento semelhante.
Segundo o Executivo, embora o direito dos trabalhadores de reivindicar melhores salários e condições de trabalho seja legítimo, existiriam elementos que justificariam a suspeita de instrumentalização política do movimento.
O governo citou a filiação sindical à CUT e afirmou que integrantes da direção da entidade manifestaram apoio a adversários eleitorais da governadora.
Celina resumiu sua interpretação de maneira ainda mais contundente:
“O PT quer o caos no DF.”
A acusação é política e foi contestada pelo movimento sindical; não houve decisão judicial estabelecendo que a greve tenha sido organizada pelo PT ou que sua finalidade fosse interferir nas eleições.
Grass esteve em assembleia dos rodoviários
Existe, contudo, um ingrediente político concreto.
Leandro Grass (PT), adversário de Celina na eleição para o Governo do Distrito Federal, participou no domingo, 20 de setembro, de uma assembleia dos rodoviários realizada no estacionamento do Conic.
Foi justamente naquele fim de semana que a categoria aprovou a paralisação para o dia 28.
A presença do candidato petista passou a ser utilizada politicamente pelo governo e pelos aliados de Celina como um dos argumentos para questionar o caráter exclusivamente trabalhista da mobilização.
Isso, por si só, não demonstra que Grass ou o PT tenham organizado a greve.
Mas, a poucos dias da eleição, a combinação entre assembleia sindical, presença de candidato ao governo, anúncio de paralisação e proximidade das urnas inevitavelmente colocou o episódio no centro da campanha.
Sindicato diz que reivindicações vinham de meses
Há outro lado da história.
Os rodoviários afirmam que as negociações não surgiram às vésperas da eleição.
Segundo o sindicato, as tratativas com as empresas estavam em andamento desde junho ou julho e envolviam reivindicações trabalhistas concretas.
Entre elas estavam reajuste salarial, aumento dos benefícios de alimentação, assistência médica e odontológica e manutenção dos postos de cobradores.
Na manhã de domingo, a categoria rejeitou uma proposta das concessionárias.
As empresas haviam oferecido 6% de reajuste salarial, além de 7% para tíquete-alimentação e cesta básica e 11,88% para auxílio-saúde e plano odontológico.
As concessionárias sustentaram que o reajuste salarial proposto ficava acima da inflação apontada por elas, de 4,11%.
Mesmo assim, os trabalhadores decidiram manter a greve.
GDF foi à Justiça
Diante da confirmação da paralisação, o Governo do Distrito Federal decidiu agir em duas frentes.
A primeira foi judicial.
O GDF acionou o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região tentando impedir que o sistema fosse completamente paralisado.
A Justiça não acolheu o pedido para proibir antecipadamente a greve.
Reconheceu o direito de paralisação, mas estabeleceu limites para proteger a população.
A decisão determinou a manutenção de 80% da operação nos horários de pico, entre 5h30 e 9h e entre 17h e 20h.
Nos demais períodos, pelo menos 50% das viagens deveriam ser realizadas.
Assim, mesmo antes do acordo definitivo, a tentativa de deixar Brasília completamente sem ônibus já havia encontrado uma barreira judicial.
Enquanto a política fervia, governo negociava
A segunda frente acabou sendo decisiva.
Enquanto governo, sindicato e adversários trocavam acusações publicamente, representantes da administração continuaram negociando.
Na noite de domingo, ocorreu uma nova reunião envolvendo a Secretaria de Transporte e Mobilidade, representantes dos trabalhadores e concessionárias.
A Procuradoria-Geral do Distrito Federal também participou da articulação.
E dessa vez houve acordo.
Os trabalhadores conquistaram 8% de reajuste salarial e 10% de aumento no tíquete e na cesta-alimentação.
Com o entendimento, o sindicato suspendeu a greve.
Os rodoviários foram orientados a comparecer normalmente aos postos de trabalho durante a madrugada.
Brasília teria ônibus na segunda-feira.
Celina comemora: “Excelente notícia”
Depois de um domingo marcado pela ameaça de paralisação, Celina anunciou o acordo nas redes sociais.
A governadora classificou o resultado como uma “excelente notícia” para a população e destacou a participação dos órgãos do GDF e da Justiça do Trabalho na construção da solução.
O resultado político também é evidente.
Uma greve de ônibus durante a última semana antes das eleições teria colocado o transporte público no centro da campanha e atingido diretamente a rotina de milhares de brasilienses.
Com o acordo, esse cenário foi evitado.
Trabalhador conquistou reajuste; população manteve ônibus
O desfecho também demonstra que não é necessário escolher entre o direito dos rodoviários e o direito da população ao transporte.
Os trabalhadores conseguiram melhorar a proposta.
As empresas chegaram a um acordo.
E os passageiros não precisaram pagar a conta do impasse ficando nos pontos de ônibus sem transporte.
A categoria conquistou reajuste salarial de 8%.
Os benefícios de alimentação serão reajustados em 10%.
E a população manteve o serviço.
A guerra política continuará
A greve acabou antes de começar.
A disputa sobre suas motivações, provavelmente, não.
Celina e seus aliados continuarão sustentando que houve uma tentativa de explorar politicamente a mobilização às vésperas das eleições.
O sindicato e seus apoiadores poderão responder que a pauta era trabalhista e vinha sendo negociada havia meses.
Há fatos que alimentam as duas dimensões do episódio.
A pauta salarial existia e vinha sendo discutida antes da reta final eleitoral.
Também é fato que a paralisação foi marcada para a semana imediatamente anterior às eleições e que Leandro Grass participou de assembleia da categoria.
O que não depende de interpretação política é o resultado.
A greve estava marcada. O GDF acionou a Justiça. A Semob e a Procuradoria-Geral do DF participaram das negociações. Um acordo foi fechado. E os ônibus continuaram circulando.
No meio de uma guerra eleitoral, esse foi o resultado que realmente importou para quem precisava acordar cedo nesta segunda-feira, chegar ao ponto e encontrar o ônibus passando.
