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Por outras formas de chegar
Imagine uma cidade em que, para chegar à padaria, ao trabalho ou à escola, nem sempre fosse preciso ligar o carro. Ruas onde caminhar, pedalar ou pegar um ônibus fossem escolhas tão naturais quanto dirigir. Essa ideia, que pode parecer distante da rotina de muitas cidades, é uma das reflexões propostas pelo Dia Mundial Sem Carro, celebrado em 22 de setembro. A data convida a população a experimentar outras formas de deslocamento e, principalmente, a pensar sobre a dependência dos automóveis e os impactos que o transporte provoca no ambiente e na vida urbana.
A iniciativa surgiu na França, em 1997, e posteriormente se espalhou por outros países, especialmente na Europa. A mobilização ganhou força internacional nos anos seguintes, dando origem a iniciativas voltadas à promoção de formas mais sustentáveis de deslocamento.
No Brasil, movimentos ambientalistas e cicloativistas começaram a promover a data a partir de 2001. A proposta era estimular, sempre que possível, o uso de bicicletas, do transporte coletivo e dos deslocamentos a pé. Mais do que um convite para deixar o automóvel na garagem por um dia, a data passou a representar uma discussão sobre como as cidades são planejadas e quais opções de mobilidade são oferecidas à população.
Dimensionando o desafio
Os números mostram o tamanho dessa discussão. O Brasil tinha mais de 71 milhões de veículos em 2024, segundo o Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários, elaborado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), sob coordenação dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e dos Transportes. Os automóveis representam 63% da frota, enquanto as motocicletas correspondem a 25%.
Em Goiás, o Departamento de Trânsito (Detran-GO) registra 5.186.556 veículos. Goiânia possui 1.441.118 veículos, número próximo aos 1.437.366 habitantes registrados pelo Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Aparecida de Goiânia, são 396.937 veículos para 527.796 habitantes. Senador Canedo tem 91.142 veículos para uma população de 155.635 pessoas.
A comparação não significa que exista um veículo para cada morador. A frota inclui automóveis, motocicletas, caminhões, ônibus e outros veículos, além daqueles que podem não circular diariamente no município onde estão registrados. Ainda assim, os dados ajudam a visualizar a presença do transporte motorizado no cotidiano.
Leziel Gonçalves utiliza a bicicleta regularmente para ir ao trabalho. ele conta que a escolha pelo pedal surgiu inicialmente como uma forma de organizar a rotina familiar. Depois que os filhos entraram na faculdade e a esposa voltou a trabalhar, ele decidiu voltar a usar a bicicleta de forma a preservar o único carro da família aos deslocamentos dos demais.
O hábito, que já fazia parte de sua rotina muitos anos antes, acabou se transformando também em uma maneira de incorporar atividade física ao cotidiano. “Eu gosto de pedalar porque, além de chegar mais rápido ao serviço do que se estivesse de carro, é uma maneira de praticar alguma atividade física depois dos 60”, conta.
Segundo Gonçalves, a bicicleta também proporciona uma experiência diferente em meio ao trânsito. Ele afirma que pedalar pelas ciclovias permite seguir o trajeto sem participar diretamente do nervosismo provocado pelo congestionamento. “Enquanto todos estão se estressando com ultrapassagens e sinais vermelhos, eu sigo meu caminho sem pressa e sem ficar preso.”
A expansão da frota trouxe também desafios ambientais, e a poluição não vem apenas da queima de combustível. O desgaste de pneus e pavimentos responde por aproximadamente metade das emissões totais de material particulado relacionadas aos veículos.
Na questão climática, os números também são expressivos. Em 2024, os veículos rodoviários emitiram 270 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Os automóveis responderam por 42% desse volume, enquanto os caminhões, somados, representaram 40%.
Os veículos pesados também são motivo de preocupação. Levantamento citado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que as emissões de CO₂ desse segmento cresceram mais de 30% desde 2000, com os caminhões responsáveis por grande parte desse aumento. Entre as medidas discutidas estão regulamentações mais rigorosas e a adoção de tecnologias de menor emissão, como ônibus e caminhões elétricos.
A escolha
Deixar o carro em casa, entretanto, nem sempre é uma decisão simples. Distância, segurança, infraestrutura e qualidade do transporte público influenciam diretamente a maneira como cada pessoa se desloca.
Leziel Gonçalves percorre cerca de 10 quilômetros por dia de bicicleta, considerando ida e volta ao trabalho. A experiência, no entanto, também o fez perceber que a escolha do meio de transporte nem sempre é coerente com a proximidade dos destinos. Ele observa que, mesmo tendo estabelecimentos a poucas quadras de casa, como mercado, farmácia e igreja, muitas vezes recorre ao carro.
“Isso mostra, de certa forma, até uma hipocrisia nossa”, afirma, ao refletir sobre a facilidade com que o automóvel é incorporado à rotina mesmo quando alternativas seriam possíveis.
É por isso que o Dia Mundial Sem Carro também é uma discussão sobre planejamento urbano. Calçadas adequadas, ciclovias, ciclofaixas, bicicletários e transporte coletivo eficiente podem ampliar as possibilidades de deslocamento.
A carona e os sistemas de compartilhamento de veículos também podem contribuir para reduzir o número de automóveis ocupados por apenas uma pessoa.
Experiências internacionais mostram diferentes caminhos. Na Dinamarca, a bicicleta faz parte da rotina urbana, enquanto a Holanda desenvolveu uma ampla infraestrutura para os deslocamentos sobre duas rodas. Em Amsterdã, são estimadas cerca de 880 mil bicicletas para aproximadamente 800 mil habitantes.
Em Bruxelas, o programa Bruxell’Air oferece incentivo financeiro para moradores que deixam de ter carro e passam a utilizar alternativas como transporte público, bicicletas e veículos compartilhados. Desde 2026, o benefício pode chegar a 1.132 euros, conforme a situação familiar.
Leziel Gonçalves afiram que a discussão proposta pela data não significa eliminar os veículos das cidades, mas refletir sobre quando eles são realmente necessários. “Eu não sabia que tinha um dia destinado a propor essa reflexão”, diz. Na avaliação dele, em uma capital como Goiânia, existem situações em que o uso de um veículo motorizado é indispensável, mas outras poderiam ser resolvidas de maneira diferente.
A mudança também pode começar perto de casa. A ida à padaria, ao mercado ou à farmácia pode ser uma oportunidade para experimentar uma caminhada ou um passeio de bicicleta, quando as condições permitirem. Além de reduzir a circulação de veículos, a mobilidade ativa pode incorporar atividade física à rotina. Para que isso aconteça, porém, é necessário que os deslocamentos sejam seguros.
Atenção à mobilidade
É justamente nesse ponto que a experiência individual encontra a discussão sobre políticas urbanas. Gonçalves defende que as cidades do futuro tenham maior atenção à mobilidade sustentável, com infraestrutura capaz de oferecer alternativas reais ao automóvel. “Espero que nas cidades do futuro haja mais consciência sobre esse tema e as problemáticas que ele envolve. Assim poderemos criar cidades mais sustentáveis, com ampla malha cicloviária e transportes coletivos que sejam realmente funcionais.”
O Dia Mundial Sem Carro não pretende resolver, em um único dia, os problemas de mobilidade construídos ao longo de décadas. A proposta é mais simples: fazer uma pausa e questionar uma rotina que muitas vezes parece automática. No dia 22 de setembro, o destino pode continuar sendo o mesmo. O convite é apenas experimentar outro caminho até ele.
Pensar em uma cidade com menos dependência dos automóveis não significa necessariamente imaginar uma cidade sem carros. Significa pensar em uma cidade com mais possibilidades, em que caminhar, pedalar ou utilizar o transporte coletivo também possam ser formas naturais de chegar.