Compartilhar
Paula Belmonte se aliou ao PT
Candidata do PSDB ao Governo do DF gravou vídeo exaltando Erika Kokay, do PT, provocou repercussão na reta final da campanha.
Faltando praticamente horas para os eleitores do Distrito Federal irem às urnas, Paula Belmonte (PSDB) conseguiu produzir uma das cenas mais inesperadas da reta final da campanha.
A candidata tucana ao Governo do Distrito Federal apareceu em vídeo ao lado de Erika Kokay (PT), candidata ao Senado situada em campo político adversário, fazendo elogios públicos à parlamentar.
O gesto imediatamente provocou repercussão.
Houve veículos que noticiaram a manifestação como apoio de Paula à candidatura de Erika e até como pedido de votos para a petista.
Outros foram mais cautelosos e registraram simplesmente que Paula gravou uma mensagem de elogio à adversária. O Correio Braziliense destacou que Erika estava em outra coligação e que, embora tenha aparecido ao lado de Paula, não pediu votos para a tucana.
A confusão estava criada.
E, para uma candidata que disputa parcela do eleitorado contrário ao PT, a pergunta apareceu imediatamente:
Paula Belmonte resolveu atravessar a fronteira política justamente na véspera da eleição?
Tucana fazendo elogio para petista na reta final
No vídeo que provocou a controvérsia, Paula fez questão de elogiar a atuação parlamentar de Erika.
“A gente pode até pensar diferente, não há problema, eu defendo isso, a democracia. Mas o que a gente precisa é ter gente com competência e compromisso”, declarou.
Paula ainda recordou a convivência das duas na Câmara dos Deputados e destacou a dedicação de Erika aos trabalhos legislativos.
Erika agradeceu publicamente.
A petista ressaltou que as duas pertencem a campos diferentes, mas defendeu que divergências políticas não precisam transformar adversários em inimigos.
Em circunstâncias normais, poderia ser simplesmente uma demonstração de civilidade entre duas adversárias.
O problema é o contexto.
Estamos falando da véspera de uma eleição.
Paula não é uma comentarista política avaliando o desempenho de uma antiga colega de Parlamento.
Ela é candidata ao Governo do Distrito Federal.
Erika é candidata ao Senado.
E cada palavra pronunciada nessa altura da campanha possui inevitavelmente peso eleitoral.
O eleitor entendeu como apoio — e Paula precisou voltar às redes
A repercussão foi tão grande que Paula voltou às redes sociais neste sábado (3) para explicar o vídeo.
E aí veio a tentativa de colocar os pingos nos is.
“Nunca votei no PT e não votarei no PT”, declarou Paula.
Segundo a candidata, o encontro com Erika teria ocorrido por acaso e suas palavras se referiam à convivência pessoal e parlamentar entre as duas.
“Eu falei da pessoa e não do partido; falei da pessoa e não da candidata”, afirmou.
Paula também esclareceu quais são efetivamente suas escolhas para o Senado:
Guto Felício (PSDB) e Sebastião Coelho (Novo).
Ou seja, depois de o vídeo ser interpretado publicamente como apoio a Erika, Paula precisou dizer que não votará nela.
Politicamente, o estrago comunicacional já estava feito.
Afinal, era apoio ou elogio?
Essa é a pergunta inevitável.
O Metrópoles inicialmente noticiou que Paula havia declarado apoio à candidatura de Erika. O Estado de Minas/PlatôBR foi ainda mais explícito e informou que a tucana havia pedido votos para a petista.
Já Paula agora sustenta que não houve apoio eleitoral.
Sua versão é clara: foi um depoimento sobre a pessoa Erika Kokay, não sobre a candidata Erika Kokay.
É justo registrar essa explicação.
Mas também é legítimo perguntar como uma candidata experiente poderia imaginar que, a dois dias da eleição, um vídeo exaltando uma candidata adversária ao Senado seria recebido simplesmente como uma homenagem pessoal sem consequência eleitoral.
Campanha eleitoral não é seminário acadêmico.
Gestos possuem significado.
Imagens possuem significado.
Elogios possuem significado.
E, na reta final, possuem ainda mais.
“Traição” é julgamento político — mas a contradição existe
Chamar o episódio de traição à base eleitoral é uma interpretação política, não um fato objetivo.
Paula afirma que não apoiou Erika e diz que sequer votará nela.
Esse esclarecimento precisa ser respeitado.
Mas isso não elimina a contradição política criada pela própria candidata.
De um lado, Paula faz questão de afirmar que não vota no PT.
Do outro, aparece na véspera da eleição exaltando publicamente justamente uma das principais candidatas petistas do Distrito Federal ao Senado.
Para parte de seus apoiadores mais identificados com o campo antipetista, é perfeitamente compreensível que a cena tenha causado estranhamento.
Afinal, campanha também é coerência de mensagem.
Erika agradeceu — e ganhou o vídeo que qualquer candidata gostaria de receber
Do ponto de vista de Erika Kokay, o episódio dificilmente poderia ser desagradável.
Uma adversária política, candidata ao Governo do Distrito Federal, aparece publicamente destacando sua competência e compromisso justamente quando faltam poucas horas para a votação.
Erika respondeu agradecendo.
“A política não pode ser feita de inimigos”, escreveu a petista, ressaltando que pessoas podem pertencer a campos diferentes e ainda assim reconhecer trajetórias.
É uma mensagem politicamente elegante.
E eleitoralmente valiosa.
Porque o elogio mais poderoso em uma campanha nem sempre é aquele feito por um aliado.
Às vezes é justamente aquele vindo do outro lado.
Paula criou para si um problema que não precisava existir
É aqui que reside o aspecto mais curioso de toda a história.
Paula Belmonte entra na eleição deste domingo tentando convencer o eleitorado de que representa uma alternativa para o Distrito Federal.
Na última pesquisa Datafolha divulgada antes da votação, ela aparecia com 10% dos votos válidos, atrás de Celina Leão, com 53%, e Leandro Grass, com 26%.
Precisava, portanto, usar cada minuto da reta final para consolidar sua própria candidatura.
Em vez disso, passou parte das últimas horas explicando por que apareceu elogiando uma candidata do PT.
Foi um problema político criado pela própria campanha.
Do elogio ao desmentido em menos de 24 horas
A cronologia resume tudo.
Na sexta-feira, Paula aparece ao lado de Erika e faz elogios públicos à petista.
Veículos interpretam o gesto como apoio eleitoral.
Erika agradece.
A repercussão cresce.
No sábado, Paula retorna às redes e declara:
“Nunca votei no PT e não votarei no PT.”
E esclarece que seus votos para o Senado serão Guto Felício e Sebastião Coelho.
Tudo isso aconteceu praticamente na porta da seção eleitoral.
O eleitor decidirá se foi gentileza ou incoerência
Paula tem direito de elogiar Erika Kokay.
Erika tem direito de agradecer.
Adversários políticos não precisam ser inimigos pessoais — e uma democracia saudável depende justamente da possibilidade de diálogo entre pessoas que pensam diferente.
Mas Paula também precisa aceitar as consequências políticas de suas próprias escolhas de comunicação.
Quando uma candidata do PSDB aparece, na véspera da eleição, fazendo elogios contundentes a uma candidata do PT ao Senado, não pode se surpreender quando parte do público interpreta aquilo como manifestação de apoio.
A própria necessidade de publicar um esclarecimento menos de 24 horas depois demonstra que a mensagem original não foi suficientemente clara.
Paula diz que não votará em Erika.
Esse é o fato mais recente e precisa ser registrado.
Mas fica a pergunta política que o eleitor responderá por conta própria:
foi apenas um gesto democrático de reconhecimento a uma adversária — ou Paula Belmonte atravessou uma linha que parte de sua própria base eleitoral não esperava vê-la atravessar justamente na véspera das urnas?
