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Inclusão abre caminhos para novos negócios e inspira empreendedores em evento do Sebrae Alagoas
Reconhecer as diferenças, adaptar serviços e compreender as necessidades de cada cliente são atitudes que podem ampliar oportunidades e fortalecer os pequenos negócios. Foi com essa proposta que o Sebrae Alagoas realizou, na quinta-feira (15), a primeira edição do “Empreender é Para Você!”, reunindo empresários, profissionais de diferentes segmentos e pessoas interessadas em empreender para discutir como a diversidade e a inclusão podem transformar as relações de consumo e abrir novos caminhos para o empreendedorismo.
Com uma programação marcada pela troca de experiências, o encontro reuniu participantes dos setores de artesanato, gastronomia e beleza, além de pessoas que buscavam compreender melhor a inclusão no cotidiano. As palestras “Todos Cabem”, com o barbeiro Renan Santana, conhecido como Tio Renan, e “Encantar é Incluir”, com Breno Oliveira, fundador da gelateria il Sordo, mostraram que acessibilidade e atendimento humanizado também fazem parte da inovação nos negócios.
Segundo dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. Em Alagoas, esse percentual chegava a 9,6%, o maior entre os estados brasileiros, reforçando a importância de ampliar a acessibilidade nos serviços, nas relações de consumo e no ambiente empreendedor.
Na abertura do evento, a gerente da Unidade de Relacionamento Empresarial do Sebrae Alagoas, Fátima Aguiar, destacou que empreender envolve responsabilidades que ultrapassam a atividade comercial e alcançam a capacidade de transformar realidades.
“Empreender não é só ter um negócio. É transformar a sua vida e a vida de outras pessoas. A nossa missão é servir, transformar e ser útil de alguma forma na vida de quem está ao nosso redor”, afirmou.
Acolher faz parte do negócio
Com 20 anos de experiência como barbeiro, Renan Santana levou ao público uma trajetória construída a partir de um olhar atento às necessidades de crianças neurodivergentes. Em sua palestra, apresentou experiências e práticas de atendimento que respeitam particularidades sensoriais e comportamentais, mostrando que procedimentos considerados simples por algumas pessoas podem representar grandes desafios para outras.
Ao longo da apresentação, mães atípicas e empreendedores que trabalham com esse público compartilharam relatos emocionados, transformando a palestra em um espaço de identificação e aprendizado coletivo.

Entre as participantes estava Rose Ramos, de 54 anos, mãe atípica e fundadora da Ressigna, negócio de impacto socioambiental que transforma resíduos têxteis e lonas publicitárias em bolsas e acessórios artesanais. Bióloga e ex-professora universitária, ela deixou a carreira acadêmica para acompanhar mais de perto o filho autista, que necessita de suporte intensivo, e encontrou no empreendedorismo uma maneira de reorganizar a própria trajetória.
O negócio nasceu há cerca de três anos, com apoio do Sebrae, e reúne sustentabilidade, técnicas artesanais e ações sociais voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade. Para Rose, a palestra de Renan teve um significado particular, especialmente pelas dificuldades que enfrentou durante anos para cortar o cabelo do filho.
“Essa manhã foi um carinho no coração, por saber que existem pessoas olhando para o outro não apenas como um novo nicho de mercado, mas com a preocupação de fazer algo diferente. É enxergar aquela pessoa como ela é, sem tratá-la como coitadinha, e entender que podemos contribuir para melhorar sua vida”, contou.
“Todos precisam de acessibilidade”
Com uma abordagem que surpreendeu a plateia logo nos primeiros instantes, Breno Oliveira, empreendedor surdo e fundador da il Sordo Gelato, iniciou sua palestra em Língua Brasileira de Sinais (Libras), sem a tradução da intérprete que o acompanhava. Durante quase um minuto, o público tentou compreender o que estava sendo comunicado, experimentando, ainda que brevemente, uma das barreiras de comunicação enfrentadas diariamente por pessoas surdas em ambientes sem acessibilidade.
Quando a intérprete finalmente traduziu sua mensagem, veio a explicação para a experiência.
“Agora vocês sabem como me sinto quando não há um intérprete de Libras nos locais. Acessibilidade não é só para nós que temos uma deficiência, todos precisam de acessibilidade e eu acabei de provar isso no início desta palestra”, declarou.

A dinâmica deu o tom de “Encantar é Incluir”, palestra na qual Breno compartilhou sua trajetória empresarial e os desafios de empreender sendo uma pessoa surda. Sua experiência mostrou que a comunicação é parte fundamental do atendimento e que a ausência de recursos acessíveis pode afastar clientes, limitar oportunidades e impedir que talentos encontrem espaço no mercado.
A mensagem encontrou identificação imediata em Antônio Nunes, também surdo, que participou do encontro e compartilhou com Breno seus planos de empreender. Com ideias que envolvem comércio eletrônico, serviços de entregas e atividades relacionadas à tradução e interpretação, ele contou, por meio de uma intérprete de Libras, que a palestra ampliou sua percepção sobre as possibilidades de desenvolver um negócio próprio.
“Depois de assistir à palestra, percebo que existe, sim, a possibilidade de empreender e sonhar com aquilo que queremos. Tenho ideias que podem se transformar em negócios e quero buscar o apoio do Sebrae para aprender sobre formalização, MEI e CNPJ”, relatou.

No caminho certo
Responsável pela coordenação do evento, a analista do Sebrae Alagoas Cíntia Silver destacou que a iniciativa integra um movimento institucional de fortalecimento da diversidade e da acessibilidade, que inclui o Projeto Plural e a participação de colaboradores na rede nacional de Embaixadores da Diversidade do Sebrae.
Atualmente, a instituição disponibiliza adaptações em seus eventos conforme as necessidades informadas pelos participantes durante a inscrição, incluindo recursos como interpretação em Libras e adequações para pessoas com baixa visão ou sensibilidade sonora. Para Cíntia, a experiência também reforçou a importância de ampliar continuamente essas práticas e aperfeiçoar o atendimento a diferentes públicos.
“A gente também precisa ter, enquanto Sebrae, esse olhar de como atender o cliente com deficiência e tornar todas as nossas soluções acessíveis, bem como também precisamos despertar nos empreendedores típicos formas acessíveis de atender seus clientes atípicos. É uma construção constante, e as palestras de hoje foram uma grande aula para nós”, explicou.