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Empreender exige coragem e maternar ensina a resistir no interior alagoano

Publicado em: 09/05/2026 16:40

Retornar ao trabalho apenas 30 dias após dar à luz não é uma escolha simples ou desejável, mas é um exemplo dos desafios que muitas mulheres enfrentam ao escolher empreender no interior de Alagoas. Em Palmeira dos Índios, enquanto a cidade desperta, a estudante de Engenharia Civil Daíse Oliveira da Silva sente um aperto no peito ao se separar da pequena Heloísa para assumir as demandas técnicas da Prosa Arquitetura, escritório que mantém junto com a arquiteta Ailma Leanne.

As noites mal dormidas nos primeiros meses, o puerpério e os cuidados com um bebê pequeno, ao mesmo tempo em que buscava soluções para atender as demandas dos clientes e enfrentava preconceito de gênero no canteiro de obras, não fazem de Daíse uma super mulher, mais forte e guerreira que aquelas que não conseguem dar conta de tudo. Longe desse estereótipo, ela faz questão de dizer que o sucesso nas duas jornadas não é milagre, é resultado da resiliência e do privilégio de contar com uma rede de apoio que ajuda a alicerçar a rotina enquanto ela busca o protagonismo na própria história.

“Eu me dei apenas 30 dias de licença-maternidade. Precisei voltar a trabalhar quando a minha filha completou um mês de vida porque não podia deixar de lado as demandas do escritório. Foi difícil, foi uma fase de adaptação mútua entre eu e minha filha. Só consigo dar conta de tudo porque conto com meus pais e os pais do meu esposo, que contribuem da melhor forma”, revela Daíse.

Enquanto encarava os desafios da amamentação exclusiva, da rotina de consultas médicas e vacinas, Daíse e sua sócia Ailma conseguiram, em cinco anos, transformar a Prosa Arquitetura em referência regional, tanto em serviços voltados para residências, empresas e, até, setor público. Em Alagoas, onde o setor de casa e construção registrou um crescimento de 58,1% nos últimos cinco anos, o acompanhamento do Sebrae Alagoas foi o alicerce necessário para que o escritório delas conseguisse se destacar em um mercado que ainda impõe barreiras ao gênero feminino.

Entre prazos e mamadas, Daíse encontrou na maternidade a força para seguir firme na construção do próprio futuro

Desafios enfrentados com “a cara e a coragem”

A Prosa Arquitetura não nasceu com a formação atual. Em 2019, a ideia partiu de Ailma e uma amiga, que dois anos depois deixou a empresa para fazer um mestrado, abrindo espaço para Daíse. A sociedade começou difícil, mas a pandemia foi um verdadeiro teste de resiliência. Elas chegaram até mesmo a vender donuts e iogurte para complementar a renda e manter o escritório funcionando. Após o período difícil, a dupla passou a enfrentar um desafio ainda mais complexo, o preconceito de gênero no canteiro de obras e até mesmo nas reuniões de projeto.

Jovens, elas enfrentam o estigma de serem chamadas de “as meninas”, infantilização que prejudica a credibilidade profissional. Em sete anos de empresa, os episódios de machismo estrutural são incontáveis, e vão desde mansplaining (quando homens tentam explicar a elas temas que elas já dominam), passando por manterrupting (quando têm a linha de raciocínio interrompida por homens), até o bropriating (quando eles se apropriam e recebem o crédito por ideias originalmente delas).

“Por muito tempo as pessoas não levavam a gente a sério. Eles se referiam a nós como ‘as meninas’ e não nos viam como profissionais. Sem falar das muitas situações, como por exemplo, em reuniões com gestores públicos para explicar um projeto. Eu explicava e eles não escutavam o que eu estava falando. Aí um engenheiro repetia as minhas palavras e o prefeito olhava para ele e dizia: ‘É exatamente isso que precisamos’. Parecia que eu era invisível, era muito frustrante”, conta Ailma Leanne, que além de arquiteta e urbanista, tem no currículo o trabalho como professora universitária.

Com 31 anos, formação em técnica de edificações, graduação em Administração de Empresas e cursando Engenharia Civil, Daíse já cogitou mudar o visual para aparentar a experiência e conhecimento que já tem e conta que fica medindo o próprio comportamento o tempo todo para ser reconhecida como profissional.

“A gente tem que fazer muito mais para demonstrar experiência e provar que é profissional. Eu até pensei em mudar o visual, porque me incomodava muito ser chamada de ‘a menina’, sem falar que precisa prestar atenção na maneira como se comporta o tempo todo. Se for simpática e sorrir muito, está dando mole. Se não sorrir e se manter séria, é antipática e mal amada. Se fala baixo não é ouvida e é interrompida o tempo todo. Se fala alto e não se deixa interromper, é histérica. É muito cansativo ficar se policiando para não ser mal interpretada”, conta.

Chamadas de “meninas”, elas responderam com trabalho, resistência e talento — e transformaram preconceito em combustível

Além de todos os obstáculos, a maternidade

Foi neste cenário tumultuado que Daíse decidiu ter sua primeira filha, Heloísa, que atualmente tem 1 ano e 8 meses. A escolha não foi tomada “apesar” das dificuldades, mas veio da certeza que conciliar a carreira e a maternidade seria ainda mais difícil se tivesse que cumprir rotinas rígidas como funcionária de empresa ou de órgão público.

Empreender foi a saída que ela encontrou para escrever a própria rotina. Mas isso não significa que o trabalho ocupa apenas espaços dentro da rotina da maternidade. Daíse viu, na prática, que é necessário decidir quais concessões fazer e do que não pode abrir mão nas duas jornadas. Por conta disso, voltou ao trabalho apenas um mês após o parto, mas em compensação, conseguiu manter a amamentação exclusiva até Luísa completar seis meses.

“Teria sido mais fácil se eu tivesse dado fórmula, até porque os primeiros três meses foram muito difíceis. Mas não desisti e me orgulho muito disso”, relata. Para manter essa rotina, ela contava com o apoio dos pais, da irmã e dos sogros, que se dividiam entre cuidar da bebê e às vezes chegavam a levá-la até o escritório para ser alimentada.

As escolhas na maternidade, assim como na vida profissional, também foram alvos de muitos julgamentos: do porquê insistir na amamentação diante das dificuldades, do porquê não dar uma pausa na profissão para se dedicar à filha até ela ter idade de ir para a escola, entre outras. Julgamentos que chegaram a causar sensação de culpa por alguns momentos, mas o privilégio de contar com uma rede de apoio empenhada, mostraram que as decisões que tomou foram acertadas.

Rede de apoio na jornada empreendedora

Se Daíse se sente segura ao deixar Heloísa aos cuidados de parentes todos os dias para trabalhar, ela e Ailma contam também a uma rede de apoio institucional do Sebrae Alagoas, que nos últimos anos tem ajudado a Prosa Arquitetura a crescer e se firmar no mercado. As sócias confiam e aplicam as soluções técnicas apresentadas pela instituição, que auxiliam na administração e gestão financeira do negócio.

Por meio de programas como o ALI (Agentes Locais de Inovação), consultorias e missões técnicas, o Sebrae se tornou pilar do escritório e resolveu um gargalo comum a muitos profissionais liberais que seguem o caminho do empreendedorismo: a falta de preparo para o mundo dos negócios, como explica a analista Sthefanny Lóz: “Muitos profissionais da arquitetura e da engenharia saem da faculdade sem saber por onde começar na hora de empreender. O Sebrae atua justamente nesta deficiência, oferecendo as ferramentas para que o negócio seja rentável e competitivo. Ver empresas como a Prosa Arquitetura se consolidarem no interior é a prova de que o suporte técnico transforma o mercado regional”, destaca a analista.

Com apoio do Sebrae Alagoas, a Prosa Arquitetura saiu da dificuldade para se consolidar como referência no interior

“Além do suporte técnico, existe algo muito forte na trajetória da Ailma e da Daíse: o apoio mútuo entre duas mulheres que acreditam no mesmo sonho. Encontrar alguém para dividir os desafios do empreendedorismo, especialmente em um setor ainda tão masculino, faz toda a diferença. Quando uma mulher encontra outra mulher que sonha junto, acredita junto e segue lado a lado, mesmo nos momentos difíceis, a empresa ganha força, identidade e resistência”, acrescenta Stheffany.

O suporte oferecido pelo Sebrae ajudou a tirar o escritório da UTI e é um grande diferencial para as empresas do setor de casa e construção. No segmento que registrou um crescimento de 58,1% nos últimos cinco anos, a instituição é responsável por reduzir a mortalidade das empresas de 23% para apenas 5,3% entre as que recebem atendimento.

Entre o cuidado com a casa, a maternidade e o trabalho, a mãe que empreende encontra no Sebrae um alicerce fundamental que entrega soluções práticas e acessíveis para quem não tem tempo a perder e nem margem para errar na gestão do próprio futuro.

Fonte: Agência de Notícias do Estado de AL

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