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Dor de barriga não dá só uma vez: trairagem de Cristiano Araújo repercute ao esconder o 11 apesar de ser apoiado por Celina
Candidato do MDB posa ao lado de Celina, foi lançado politicamente com o apoio da governadora e integra sua base, mas material de campanha prioriza o próprio número e deixa o 11 fora da vitrine
Na política, existem alianças que aparecem no palanque.
E existem alianças que aparecem também na hora de pedir voto.
Pelo menos no caso de Cristiano Araújo, uma coisa parece não estar acompanhando a outra.
O candidato a deputado distrital pelo MDB aparece ao lado da governadora Celina Leão, participa de eventos da base e mantém proximidade política com o grupo que disputa a reeleição.
Mas há um pequeno detalhe que chama atenção de quem recebe seu material de campanha:
cadê o 11?
O número de Celina não aparece com destaque no material eleitoral de Cristiano.
A situação virou munição para críticas dentro do próprio campo político da governadora, especialmente porque Cristiano não é um desconhecido da administração.
Ele foi secretário de Turismo durante os dois governos de Ibaneis Rocha e deixou a pasta para disputar uma vaga na Câmara Legislativa.
No palanque, parceria. No santinho, cada um por si
A imagem pública é de proximidade.
Cristiano participou de atos com Celina.
No lançamento de sua campanha, em setembro, a governadora esteve ao lado dele, juntamente com Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Rafael Prudente, em um evento que reuniu milhares de apoiadores.
E não foi uma fotografia isolada.
A agenda política dos dois continuou depois do lançamento.
Na reta final, Cristiano aparece inclusive entre os compromissos da governadora em encontro político realizado com Rafael Prudente.
Então fica a pergunta que incomoda:
se a parceria é tão boa no palanque, por que o 11 desaparece justamente quando chega a hora de pedir voto?
É aí que começa a brincadeira — e também a cobrança política.
O número que parece ter virado tabu
Celina concorre ao Governo do Distrito Federal com o número 11.
Cristiano Araújo disputa uma vaga de deputado distrital com o número 15015.
Até aí, tudo absolutamente normal.
Cada candidato tem seu número e precisa divulgá-lo.
O problema apontado pelo Radar DF é outro: o material de campanha de Cristiano não destacaria o número da governadora, apesar de ele integrar o grupo político que sustenta a candidatura de Celina.
É como se a matemática eleitoral tivesse produzido uma regra bastante conveniente:
o meu número aparece em letras garrafais; o seu, se der, fica para depois.
Para quem está na disputa proporcional, a lógica é compreensível: cada voto conta.
Mas política também é reciprocidade.
Quem pede voto para si e para sua chapa precisa decidir se está disposto a dividir o espaço do santinho.
Celina ajudou a lançar a candidatura
Outro elemento torna a situação ainda mais curiosa.
Cristiano não começou sua campanha como um estranho ao grupo de Celina.
A governadora participou do lançamento de sua candidatura e apareceu publicamente ao lado do candidato.
Cristiano também construiu sua trajetória recente dentro do governo do Distrito Federal.
Segundo seu próprio material de campanha, ele deixou a Secretaria de Turismo em março de 2026 para disputar novamente uma cadeira na Câmara Legislativa.
Ou seja: não é alguém que chegou ontem ao grupo político.
É justamente por isso que a ausência do 11 chama atenção.
A velha política do “cada um por si”
Na reta final de uma eleição proporcional, cada candidato quer garantir seus próprios votos.
Isso é natural.
A disputa por 24 cadeiras da Câmara Legislativa é dura.
Cristiano, inclusive, já conhece o caminho.
Foi eleito deputado distrital em 2006, 2010 e 2014 e voltou a disputar eleições para a CLDF em 2018 e 2022, quando ficou como suplente.
Agora tenta retornar ao Legislativo.
É uma eleição importante para ele.
Mas, quando um candidato está inserido em uma chapa ou grupo político, surge uma questão elementar:
a vitória é individual ou coletiva?
Se a resposta for coletiva, o número da cabeça da chapa deveria viajar junto.
O cálculo que ninguém admite
Existe ainda uma leitura política — e aqui entramos claramente no terreno da opinião.
Quanto mais perto Celina estiver de liquidar a eleição no primeiro turno, menor é o espaço para negociações posteriores.
Uma eleição em dois turnos cria uma segunda rodada de negociações, alianças e acertos.
Uma vitória no primeiro turno encerra tudo no dia 4.
O próprio Radar DF levanta essa interpretação ao sugerir que alguns aliados poderiam ter interesse em prolongar a disputa. Trata-se, porém, de uma avaliação política, e não de algo que possa ser atribuído como intenção comprovada a Cristiano Araújo sem evidências adicionais.
E aí está o ponto interessante:
se Celina vencer logo no primeiro turno, acabou a temporada de barganha eleitoral.
Não existe segunda rodada.
Não existe novo palanque.
Não existe novo lote de negociações para outubro.
A urna fecha a conta.
Mas quem pede voto precisa mostrar de que lado está
Cristiano pode perfeitamente pedir voto para si.
É candidato.
Tem número próprio.
Tem projeto político.
Tem direito de construir sua campanha da maneira que considerar adequada.
Mas a política também é feita de sinais.
E esconder o número da governadora, enquanto posa ao lado dela e integra sua base, produz inevitavelmente uma pergunta:
é aliado de Celina até a urna ou somente até a fotografia?
Essa é uma pergunta política.
E o eleitor tem todo o direito de fazê-la.
Celina não precisa de favor. Mas aliado precisa ser aliado
A governadora chega à reta final da eleição liderando as pesquisas e em cenário de possível vitória no primeiro turno.
Isso torna ainda mais curioso o comportamento de alguns integrantes de sua própria base.
Porque, se Celina realmente está tão forte quanto indicam os levantamentos, seria de esperar que seus aliados aproveitassem a onda.
É a velha lógica eleitoral:
se o barco está andando, todo mundo quer aparecer no convés.
Mas não adianta aparecer na fotografia e esconder a bandeira.
Na campanha, lealdade política também se mede pelo que se coloca — ou não se coloca — no material que chega à mão do eleitor.
No domingo, a urna não esquece
Cristiano quer voltar à Câmara Legislativa.
Celina quer continuar no Buriti.
Os dois precisam de votos.
Um precisa do 15015.
A outra precisa do 11.
A diferença é que Cristiano aparece publicamente ao lado de Celina, enquanto o material de campanha apontado na denúncia política simplesmente não dá ao número dela o mesmo destaque.
Pode ser estratégia.
Pode ser opção de marketing.
Pode ser preocupação exclusivamente com a própria candidatura.
Ou pode ser apenas aquele velho instinto eleitoral de “cada um cuida do seu”.
O eleitor, naturalmente, fará sua própria leitura.
Mas fica o registro:
na política, fotografia de palanque é bonita. O que vale mesmo é o que o candidato faz quando está sozinho diante do eleitor — e quando precisa decidir se divulga o número do aliado ou esconde a placa.
Porque, no fim, existe uma pergunta que o santinho não consegue esconder:
Cristiano Araújo está com Celina até o fim ou só até a foto?
