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De olho na hipertensão

Publicado em: 27/04/2026 07:38

Ao celebrar o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão, nesse último domingo, 26 de abril, o Brasil se depara com uma mudança relevante surgida em setembro do ano passado: a diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia relativa ao tema enfatizando que uma pressão de 12 por 8 já caracteriza pré-hipertensão ou pressão elevada.

Essa diretriz ecoa a estabelecida em 2024 pela Sociedade Europeia de Cardiologia, mas é vista com ressalvas por muitos cardiologistas por seu potencial de alarmismo, diagnósticos enganosos e consumo excessivo de remédios.

“Nem sempre é bom enfatizar essa questão do 12 por 8. Isso tem que ser contextualizado”, afirma o cardiologista Tales de Carvalho, doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Falar em pré-hipertensão é muito forte baseado em uma só medida, uma só consulta. Acaba sendo uma orientação simplificada, que leva pouco em consideração o contexto do indivíduo”, pondera.

Abaixo, a Agência Assembleia de Notícias sintetiza os principais tópicos abordados em uma entrevista com o cardiologista, como a diretriz mencionada, a relação entre canetas emagrecedoras e hipertensão, o uso de relógios digitais para medir a pressão arterial e o aumento do percentual de brasileiros hipertensos ao longo das últimas décadas.

Doença crônica que mata 388 pessoas por dia no Brasil, a hipertensão é caracterizada por níveis elevados da pressão sanguínea nas artérias, acontecendo quando os valores das pressões máxima e mínima são iguais ou superiores a 140/90 mmHg (ou 14 por 9).

“A pressão alta faz com que o coração tenha que exercer um esforço maior do que o normal para fazer com que o sangue seja distribuído corretamente no corpo”, explica o Ministério da Saúde. “Ela é um dos principais fatores de risco para a ocorrência de acidente vascular cerebral, enfarte, aneurisma arterial e insuficiência renal e cardíaca”.

Nesta seção da página do Ministério são elencadas causas, sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção da hipertensão.

A seguir, os principais trechos da conversa com Tales de Carvalho. Além de membro tanto da Sociedade Brasileira quanto da Europeia de Cardiologia, ele é integrante da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, que já presidiu.  

Pressão 12 por 8 como pré-hipertensão

“[Essa diretriz] gerou confusão, no meu modo de ver. Observo às vezes gente usando mais remédio [anti-hipertensivo] do que precisa e do que pode usar com o 120 por 80 verificado rotineiramente. Pega um idoso que tenha o sistema cardiovascular mais enrijecido. Pode ser que sentado ou deitado ele apresente a pressão um pouco mais alta. Quando fica em pé, despenca a pressão. Essa pessoa, quando a pressão está um pouco acima do 120/80, começa tomar mais remédio ou a restringir muito sódio, ela se levanta à noite para ir ao banheiro, tem queda de pressão, tontura, cai e bate a cabeça, podendo ter trauma cerebral, ou tem fraturas ósseas graves. É muito frequente isso em idosos”, explica Tales de Carvalho. 

O especialista aponta que o diagnóstico não pode levar em conta um momento específico. “Tem médicos não cardiologistas que acabam se envolvendo com a hipertensão, mas não acompanham isso no dia a dia ou em congressos. Falar em pré-hipertensão pode gerar um alerta, um estresse desnecessário. Não se pode falar nela baseado em uma única medida, muitas vezes verificada antes da consulta, na sala de cadastro. O correto é, no consultório médico, repetir essa medida duas, três vezes, inclusive com o paciente em pé.  Sempre devidamente posicionado e relaxado, com o braço colocado na maneira adequada, entre outros aspectos, como verificar se não fumou ou chegou caminhando e subiu algumas escadas antes de entrar no consultório. Tudo isso faz diferença”, relata Carvalho. 

“Muitas vezes não dá pra bater o martelo [do diagnóstico de hipertensão] na primeira consulta. Eu valorizo muito a pressão verificada de maneira dinâmica, em um teste cardiopulmonar ou em um teste ergométrico, por exemplo, porque aí se verifica antes do esforço, durante e na recuperação, o que dá uma visão muito mais ampla”, defende Tales de Carvalho. 

Para Carvalho a orientação de aferir a pressão em casa com frequência também pode ser prejudicial. “Tem idoso que acorda e resolve verificar a pressão de madrugada. Está alta. Daí verifica de novo e está mais alta, ficou nervoso, pode ir parar na emergência, e lá com certeza a pressão vai estar mais alta ainda. Então [a diretriz] confundiu. Recomendo a pacientes que não verifiquem a pressão com tanta frequência, e sim observem se estão se comportando adequadamente, fazendo exercícios, se alimentando sem exagero no sódio, com muito potássio, com frutas, verduras e legumes nas três principais refeições, se estão dormindo bem, o básico obrigatório na prevenção e tratamento da hipertensão”.

Aumento de casos de hipertensão no Brasil

Implantado em 2006, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico – Vigitel teve dados de 2024 divulgados recentemente. Foi verificado um total de 29,7% de brasileiros hipertensos (no caso, que tiveram pressão alta diagnosticada por médicos), ante 22,6% duas décadas atrás, no início da pesquisa.

“A população está envelhecendo, e a tendência é a pressão subir a cada década de vida depois dos 40 anos. Não é obrigatório, mas é uma tendência, o sistema cardiovascular vai enrijecendo, as artérias não se dilatam tanto quanto a dos jovens, que amortece a tensão arterial. Então tem isso, as pessoas estão vivendo mais, além de verificarem mais a pressão e de haver uma maior preocupação com questões preventivas”, ressalta Tales de Carvalho.

“Mas que está aumentando está, é um problema de saúde pública. Há um aumento da obesidade, do estresse, do sedentarismo, tudo isso gera um quadro preocupante”, alerta o cardiologista. 

Relógios que medem pressão arterial

Tales de Carvalho vê com ressalvas o uso de relógios que monitoram os dados cardiovasculares. “Muitos desses relógios não são tão precisos, podendo gerar um erro de avaliação. E tem gente que fica muito ligada nisso, preocupada o tempo todo com a frequência cardíaca, com a pressão arterial, em vez de sair para relaxar e curtir uma boa caminhada”.

“Até pode ser interessante: tem relógio que registra, por exemplo, eletrocardiograma, o que pode ajudar a detectar precocemente uma arritmia. Mas não acho que esse uso deva fazer parte de uma orientação para a população em geral, tem muito fator de confusão”, pondera o especialista. 

Canetas emagrecedoras e hipertensão

Para o médico as canetas emagrecedoras que se popularizaram nos últimos anos podem ser aliadas no tratamento da hipertensão ao combater a obesidade. “Essas canetas têm um efeito muito interessante no diabetes [a incidência de pressão alta é maior em diabéticos]. Ficou demonstrado em estudos populacionais, e clínicos também, que o uso delas tem como efeito uma proteção cardiovascular, tanto que é o primeiro medicamento que a Organização Mundial de Saúde recomenda para a questão da obesidade, embora inicialmente não fosse desenvolvido para isso”, pontua Tales de Carvalho. 

“Costumo dizer que esse remédio pode até ser usado, mas é importante que aconteçam mudanças de hábitos de vida. Você usa, emagrece; para, recupera o peso. E não se sabe muito bem a médio ou longo prazo no que vai dar. Já tem estudos mostrando que há efeitos indesejáveis, colaterais, como na retina, no pâncreas etc. O básico, obrigatório quando se pensa em agir nas causas, é a mudança no estilo de vida, e isso serve tanto para a questão da hipertensão quanto da obesidade, enfim, na saúde em geral”, esclarece Carvalho. 

Consumo de álcool

A reportagem questionou o cardiologista Tales de Carvalho sobre o fato de o álcool ser um fator em geral menos associado que os demais – fumo, obesidade, estresse, elevado consumo de sal, colesterol alto e falta de atividade física – à hipertensão. Seria o álcool uma causa menor da doença ou tão importante quanto as outras, mas subestimada?

“O álcool é um fator relevante de risco cardiovascular, seja em relação a uma doença no coração, um infarto, por exemplo, seja em relação a uma doença cérebro-vascular, como um AVC [Acidente Vascular Cerebral]. É um fator importante para a aterosclerose, enfim, para muitas outras doenças que decorrem da pressão descontrolada”, aponta Carvalho. 

“O álcool, em um contexto com comorbidades, como diabetes, e fatores nocivos, como fumo, tem um efeito exponencial. É muito diferente uma pressão um pouco alta em um sujeito que se alimenta bem, faz exercícios regularmente, não fuma, não tem doenças diagnosticadas, e em outro que é diabético, obeso, fuma e está bebendo. Tem que ser analisado o conjunto. Já houve estudos dizendo que um pouco de álcool faz bem. Hoje está bem claro que, mesmo em pequenas quantidades, não faz bem, é um fator de risco que potencializa a hipertensão, entre outros prejuízos para a saúde”, conclui Tales de Carvalho. 

Fonte: Agência de Notícias do Estado de GO

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