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Como os CAPS foram reestruturados em cinco anos de investimento da Prefeitura de Maceió
Os desenhos e pinturas no mural colado na parede recém-inaugurada do CAPS AD III dizem: “Aqui você pode ser quem você é sem medo” e “Quem ama cuida”. As frases e ilustrações coloridas, com expressões alegres, pintadas pelos frequentadores do primeiro Centro de Apoio Psicossocial (CAPS AD III) da parte alta de Maceió, são manifestações artísticas de quem utiliza a unidade de saúde pública como âncora para atravessar uma das fases mais difíceis da vida.
Mas nem sempre foi assim. Até cinco anos atrás, as paredes dos CAPS de Maceió evidenciavam não a expressão artística dos frequentadores, mas mofos, infiltrações, rebocos e pintura desgastada em um cenário de abandono. Por 20 anos, o serviço de saúde mental no SUS de Maceió resistiu mais pela vontade das equipes técnicas que trabalham na ponta, do que pelo poder público. “Eram salas desestruturadas, banheiros insalubres e muita falta de acessibilidade”, lembra a coordenadora-geral dos CAPS de Maceió, Roseane Farias.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) existem para atender pessoas com sofrimento psíquico; são pacientes que chegam nessas unidades com casos graves de transtornos mentais e de dependência de álcool e outras drogas. O serviço é gratuito, oferecido pelo SUS, mas só depois de duas décadas, começou a integrar o escopo prioritário da gestão do Município. Em 2021, a Prefeitura de Maceió iniciou a aplicação de R$ 6,5 milhões em recursos públicos para reformar ou construir novos Centros de Atenção.
De lá para cá, todas as unidades de saúde mental de Maceió foram reformadas. Os CAPS revitalizados e que atendem casos gerais de transtornos psicológicos são o da Chã de Bebedouro, o do Jacintinho, o Infanto-Juvenil da Serraria e o da Jatiúca, inaugurado em outubro do ano passado com R$ 1,7 milhões investidos. Já os CAPS AD, que acolhem pessoas dependentes de álcool e outras drogas, também receberam intervenções na estrutura física, na renovação de maquinários e melhorias em espaços com acessibilidade.
“Após as reformas, conseguimos deixar as unidades em funcionamento de forma adequada. Ganhamos novos mobiliários e equipamentos, além de espaços pensados com acessibilidade, como a instalação de rampas de acesso e banheiros adaptados. Tivemos um salto de qualidade a nível de ambiência muito grande”, destaca a coordenadora Roseane Farias.
CAPS nas comunidades remotas
A parte alta da capital alagoana era uma região que vivia às margens das políticas públicas. No entanto, nos últimos cinco anos, 80% dos investimentos da Prefeitura de Maceió se concentraram em áreas periféricas e em bairros localizados nas porções Noroeste e Oeste, que ficam na parte superior do mapa da cidade, longe do Centro e do litoral. Uma conquista histórica para a população dessas áreas foi a entrega, em junho deste ano, do CAPS AD III, o primeiro no atendimento a dependentes químicos na região.
Localizada no Conjunto Novo Jardim, no bairro Cidade Universitária, a unidade de saúde tem capacidade para atender 1.350 pessoas por mês. Antes, os moradores dessa parte da cidade, que precisavam de ajuda para lidar com o álcool e outras substâncias, tinham que se deslocar por 17 km até a unidade mais próxima instalada no bairro do Farol. “Antes era mais difícil. Muitas vezes eu fiquei prestes a entrar em crise, mas não procurei ajuda justamente pela distância que desestimulava bastante”, recorda a paciente Valdilene da Silva, de 56 anos.
A cidade de Maceió conta com seis CAPS, sendo dois na modalidade AD. Juntas, as unidades de saúde mental realizaram mais de 19 mil atendimentos nos cinco primeiros meses deste ano. Os dados não refletem apenas números, mas histórias de quem encontra na boa manutenção desses espaços, a oportunidade para se tratar, mudar a rota de vida e retomar sonhos. “Meu sonho é abrir a minha própria confeitaria. Estou aqui por mim, mas primeiramente por meus filhos”.
A fala acima é de Pollyana da Conceição Nascimento. Ela tem 28 anos de idade e, há 12 meses, luta contra a dependência de cocaína. A aspirante a confeiteira mora desde a infância no Gama Lins, um subconjunto do Novo Jardim, onde está instalado o CAPS AD III. A região é formada por pouco comércio e conjuntos residenciais distantes um do outro. A unidade de saúde mental chega no local para que o acesso a esse serviço e a continuidade do tratamento psíquico sejam garantidos a essa parcela da população.

“Eu chego aqui às 8h e saio às 17h. Se eu tivesse em casa nesse tempo, já teria consumido droga. Aqui eu desenho, pinto, converso com outras pessoas, aprendo coisas novas, faço exercício físico. Se não fosse essa alternativa, eu teria que me internar em um lugar distante, o que seria um processo doloroso para mim e para minha mãe”, explica Pollyana Nascimento.
A ruptura de crenças
“Eu imaginava um ambiente hostil, velho, onde iriam me dopar de medicamentos, mas não, a realidade foi totalmente diferente. As pessoas aqui são atenciosas, educadas e têm realmente a vontade de ajudar a gente. A estrutura também torna a experiência ainda melhor: o ambiente é claro, limpo, com cadeiras e mesas novinhas. Isso reforça a nossa sensação de conforto e de cuidado”, relata Pollyana.
O CAPS AD III abriga uma equipe técnica e multidisciplinar compo
sta por 52 profissionais. São médicos, agentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos e assistentes sociais. A partir de agosto, a unidade irá funcionar 24 horas, de domingo a domingo. Para ter acesso a esse ou ao serviço de qualquer outro CAPS de Maceió, basta comparecer ao local munido de documentos pessoais de identificação. Não é necessário encaminhamento médico.
“Eu tive uma infância sofrida. E infelizmente utilizei a droga para preencher espaços tomados por traumas e violências que eu sofri. Eu pensei que poderia ser um refúgio, mas não, potencializou minha ansiedade, me deixou dependente e sem autonomia da minha própria vida”, conta Pollyana Nascimento.
Apesar de integrar uma das estatísticas que mais desafiam o sistema de saúde pública do Brasil, a dependência química, Pollyana Nascimento encontrou forças para buscar ajuda já no primeiro ano de dependência. Ela não quer que a droga roube ainda mais o tempo de vida, usado agora para se reabilitar e se dedicar aos filhos e aos sonhos.
“Eu estou aqui para me libertar de uma vez por todas, voltar a cuidar dos meus filhos e ter minha vida normal. Eu gosto de fazer doces. No momento não tenho dinheiro para pagar um curso de confeitaria, mas estudo como posso, de graça, pela internet. Quero resgatar o controle da minha própria vida e sinto que aqui no CAPS terei a ajuda necessária para que isso aconteça”, finaliza Pollyana Nascimento.
Secretaria Municipal de Saúde
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