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Celina se recusa a participar do circo na Globo e mesmo assim dominou o debate: sem propostas para o DF, candidatos passaram a noite atacando a líder
Governadora não participou do debate na Globo e os candidatos, novamente, em vez de apresentarem suas propostas para Brasília, limitaram-se a lhe fazer ataques pessoais; enquanto adversários concentraram críticas na cadeira vazia, pesquisa Real Time Big Data coloca Celina com 52% dos votos válidos sendo eleita no 1º turno
Era para ser um debate entre candidatos ao Governo do Distrito Federal.
Mas, em vários momentos, pareceu uma reunião para falar de quem não estava lá.
Celina Leão decidiu não comparecer ao debate da TV Globo realizado na noite desta terça-feira (29).
Resultado?
Celina para cá.
Celina para lá.
BRB para cá.
Governo Celina para lá.
Pergunta para Celina.
Crítica para Celina.
Acusação contra Celina.
Só faltou alguém colocar uma fotografia da governadora na cadeira vazia para completar o cenário.
A candidata que não foi ao debate conseguiu uma façanha curiosa: continuou ocupando boa parte dele.
A cadeira estava vazia. O nome de Celina, não
Leandro Grass (PT), Paula Belmonte (PSDB), Ricardo Cappelli (PSB) e Kiko Caputo (Novo) participaram do último confronto televisionado antes da eleição.
A governadora ficou de fora.
Mas quem imaginou que sua ausência faria os adversários concentrarem esforços em explicar suas próprias propostas teve uma surpresa.
Celina continuou no centro da conversa.
Grass foi um dos primeiros a tentar trazer a candidata ausente para dentro do estúdio.
Usou as regras do programa para dirigir pergunta a Celina e concentrou críticas no episódio envolvendo o BRB.
Cappelli e Belmonte também atacaram a administração da governadora.
A estratégia eleitoral era compreensível: quando existe uma candidata liderando as pesquisas, os adversários naturalmente concentram fogo nela.
Só que a cena produziu uma ironia irresistível.
Quatro candidatos estavam fisicamente presentes. E boa parte da atenção continuava dedicada à quinta, que estava em outro lugar.
O debate da cadeira vazia
A campanha de Celina justificou a ausência afirmando que o formato transformaria o programa numa exposição desnecessária da governadora a cinco dias da eleição.
A candidata seria, segundo sua campanha, o alvo preferencial dos demais concorrentes.
O debate aconteceu sem ela.
E, goste-se ou não da decisão, uma coisa ficou evidente:
Celina realmente foi alvo.
O Jornal de Brasília resumiu a situação de maneira curiosa: sem a governadora, os candidatos começaram o debate procurando alguém para atacar.
Grass insistiu no BRB.
Kiko e Paula tentaram também conversar com o eleitorado de José Roberto Arruda.
Cappelli disparou críticas contra o governo.
E Celina?
Celina não precisava sequer levantar a placa de “direito de resposta”.
Não estava lá.
Grass perguntou. A cadeira não respondeu.
O momento talvez mais simbólico tenha vindo justamente de Leandro Grass.
O candidato petista resolveu utilizar seu espaço para questionar Celina sobre o BRB.
Perguntou onde estaria o dinheiro do banco e criticou a ausência da governadora.
Politicamente, faz sentido.
Grass é o segundo colocado nos levantamentos e precisa reduzir a distância para a líder.
Mas existe algo involuntariamente cômico em gastar preciosos minutos de televisão debatendo com alguém que decidiu não aparecer.
Grass perguntava.
Celina não estava.
Grass criticava.
Celina não estava.
Grass tentava colocar a governadora no centro do debate.
E, nisso, conseguiu.
A ausência virou presença.
Enquanto isso, a pesquisa estava fazendo outra conta
Talvez seja justamente esse o detalhe mais incômodo para os adversários.
Enquanto o estúdio discutia Celina sem Celina, a pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta reta final apresentava números bastante diferentes entre a governadora e seus concorrentes.
Na pesquisa estimulada, antes da exclusão de brancos, nulos e indecisos:
Celina Leão: 47%.
Leandro Grass: 26%.
Paula Belmonte: 10%.
Ricardo Cappelli: 4%.
Kiko Caputo: 1%.
Quando considerados apenas os votos válidos, a fotografia fica ainda mais chamativa:
Celina: 52%.
Grass: 29%.
Paula: 12%.
Cappelli: 4%.
Kiko: 1%.
Traduzindo do idioma das pesquisas para o português popular:
os quatro candidatos que estavam no debate tentavam derrubar justamente a candidata que não estava no debate e que aparecia, naquele levantamento, com mais votos válidos do que todos eles juntos.
A soma de Grass, Paula, Cappelli e Kiko chega a 46%.
Celina aparece com 52%.
É uma fotografia da pesquisa, não o resultado da eleição.
Mas explica perfeitamente por que a cadeira vazia recebeu tanta atenção.
Todo mundo contra quem está na frente
Não existe mistério político nisso.
Quem lidera vira alvo.
É assim em eleição para síndico.
É assim em campeonato de futebol.
É assim numa corrida eleitoral.
Se quatro adversários precisam ultrapassar uma candidata, ninguém espera que passem duas horas trocando elogios com ela.
O problema é quando a estratégia fica tão evidente que o eleitor começa a enxergar o roteiro.
Grass precisa crescer.
Paula precisa crescer.
Cappelli precisa crescer.
Kiko precisa crescer.
Todos precisam tirar votos de alguém.
E quem aparece na frente?
Celina.
Portanto, adivinhe quem virou assunto.
Celina.
Não precisa chamar Sherlock Holmes.
O elefante de 52% dentro do estúdio
Enquanto os candidatos discutiam, havia um enorme elefante eleitoral passeando silenciosamente pelo cenário da Globo.
Ele tinha um número pintado na testa:
52%.
É o percentual de votos válidos atribuído a Celina pela Real Time Big Data.
Esse número precisa ser tratado com cautela.
A pesquisa ouviu 1.600 eleitores entre 24 e 28 de setembro, possui margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Portanto, não existe eleição encerrada.
Não existe resultado antecipado.
Não existe governador escolhido por pesquisa.
Quem decide é o eleitor.
Mas também seria absurdo fingir que o número não existe.
Se o percentual medido entre os votos válidos fosse reproduzido exatamente nas urnas, Celina ultrapassaria a maioria absoluta necessária e a eleição terminaria no primeiro turno.
É por isso que os últimos dias valem ouro para os adversários.
O relógio virou inimigo
O maior problema para Grass e os demais concorrentes agora talvez nem seja Celina.
É o calendário.
Não existem mais três meses.
Nem três semanas.
Existem dias.
A esta altura, cada entrevista, caminhada, vídeo, debate e postagem precisa tentar mover votos rapidamente.
E o debate da Globo era uma das últimas grandes vitrines.
Celina decidiu abrir mão dela.
Se foi estratégia correta ou erro eleitoral, o eleitor dará a resposta.
Mas os adversários acabaram oferecendo à governadora uma curiosa compensação:
falaram dela mesmo assim.
Celina economizou saliva e ganhou menções.
E o BRB?
Isso não significa que as acusações levantadas no debate devam ser ignoradas.
Muito pelo contrário.
Grass afirmou que R$ 120 milhões do Fundo de Saúde teriam sido transferidos para aplicação no BRB e questionou a legalidade da operação.
Outros candidatos também relacionaram o governo à crise envolvendo o banco e o Banco Master.
São questões relevantes e precisam ser esclarecidas, investigadas e confrontadas com documentos e respostas oficiais.
Debate eleitoral existe também para isso.
O que chama atenção, porém, é a concentração política do confronto.
A candidata ausente virou assunto recorrente justamente porque é a candidata que os presentes precisam alcançar.
É política eleitoral em estado puro.
Tentaram fazer da ausência o assunto da noite
Celina apostou que comparecer ao debate significaria entrar numa arena em que seria alvo preferencial dos quatro adversários.
Os quatro adversários responderam fazendo dela alvo mesmo sem sua presença.
Foi quase um debate por procuração.
A candidata não estava.
Mas seu governo estava.
Seu nome estava.
O BRB estava.
Sua liderança nas pesquisas pairava sobre o estúdio.
E seus adversários estavam todos lá.
Agora vem o único debate que realmente vale voto
Na televisão, candidato fala.
Mediador controla tempo.
Assessoria prepara frase.
Marqueteiro calcula ataque.
Equipe comemora corte para rede social.
No domingo, acaba o teatro.
Não haverá cronômetro da Globo.
Não haverá pergunta com réplica e tréplica.
Não haverá candidato falando com cadeira vazia.
Haverá eleitor diante da urna.
A Real Time Big Data coloca Celina com 52% dos votos válidos, contra 29% de Grass.
Pode mudar?
Claro.
Pesquisa não é urna.
Mas o tamanho da diferença ajuda a explicar a temperatura da noite de terça-feira.
Os adversários foram à Globo para debater entre si.
Celina ficou em casa.
E, mesmo assim, conseguiu continuar no centro do palco.
No fim das contas, talvez a maior ironia do debate tenha sido essa: Celina faltou — e os adversários passaram boa parte da noite fazendo questão de lembrar ao eleitor que ela existe.
No domingo, porém, cadeira vazia não vota.
Quem decide se haverá segundo turno — e quem continuará apenas debatendo — é o povo do Distrito Federal.
