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Caso Cícera Laura: Acusação foi impecável e conseguiu condenação do réu a mais de 67 anos de prisão
O auditório da 5ª Vara lotado demonstrou que a sociedade arapiraquense ansiava por justiça, com ela a família queria amenizar a dor. E o Ministério Público de Alagoas (MPAL), representado pela promotora de Justiça Viviane Farias, prometeu que daria uma resposta a altura. Munida de provas incontestáveis, com uma sustentação firme e convincente, tendo como assistente de acusação a defensora Lívia Azevedo, veio o resultado esperado com a condenação de Anderson Gonçalves, 31 anos, que sentou no banco dos réus como assassino de Cícera Laura da Silva, de 49 anos, crime ocorrido no dia 4 de janeiro de 2026, no Bosque das Arapiracas. A sentença contabilizou 67 anos e quatro meses de reclusão, em regime fechado, pelos crimes de feminicídio, estupro e ocultação de cadáver.
Durante todo o julgamento, era visível a emoção no rosto de cada pessoa, algumas demonstrando indignação em suas falas, enquanto outras, com a sensação de impotência, choravam. O réu , que preferiu o silêncio perante o juiz, respondeu apenas a uma pergunta do defensor Mário reafirmando a autoria da morte, porém negando os demais crimes. Mas, a justificativa de que teria matado Cícera Laura por causa de um débito por ela contraído, caiu por terra nos debates quando a acusação comprovou todo trâmite do processo, da abordagem do criminoso por vídeos, à fotografias chocantes do corpo.
A promotora de Justiça Viviane Farias , desde o início, com voz imposta, mostrou que Cícera foi mais uma mulher, em estado de vulnerabilidade, observada e escolhida por um dos milhares de predadores que, diariamente, fazem mais de 10 vítimas (uma a cada cinco e seis horas) pelo Brasil. Apesar de não atuar no júri, ser da Promotoria de Infância e da Juventude, como mulher e filha da cidade, ela fez questão de representar o MPAL nesse caso.
“Desde que aconteceu esse crime, pedi ao meu colega Ivaldo pra fazer o júri. Porque de todos os promotores de Justiça daqui, sou a única mulher. E como mulher, filha de Arapiraca, eu tomei pra mim essa dor. É muito difícil ser mulher no dia de hoje, somos julgadas por tudo, a dona Cícera, como eu, saia de madrugada para se exercitar, usava as atividades para se afastar da depressão. E foi brutalmente estuprada e assassinada. Quando venho para cá sinto o peso da vida e da morte, aqui o Ministério Público sente a dor da família da dona Cícera. Essa família sofreu várias violências, sofreu quando o Estado falhou e os filhos tiveram que ir atrás do algoz. Quero dizer aqui que quando uma mulher morre, todas nós morremos um pouco”.
E continuou: “Garanti à família que daria tudo de mim para amenizar a sua dor. Então, hoje, pedimos ao conselho sentença que aceite todas as qualificadoras. Precisamos mostrar a outros predadores que ainda estão na clandestinidade que os crimes não ficarão impunes, precisamos fazer a dona Cícera descansar em paz”.
Para reforçar o que havia na denúncia, Viviane Farias lembrou ao conselho de sentença o depoimento das testemunhas que, como a vítima, habitualmente faziam caminhada nas primeira horas da manhã. Elas afirmaram que o réu as acompanhou por três vezes, chegando a mostrar os órgãos genitais. No entendimento do Ministério Público, tal atitude mostrava claramente o desprezo que o réu tinha pelas mulheres.
“Será que ele fazia isso, também, com os homens que caminhavam no bosque? Claro que não. E o Ministério Público coloca aqui a questão do estupro, sim. A dona Cícera foi encontrada sem o short e sem a calcinha, os registros das câmeras mostram que ele empurrou a dona Cícera para a mata por volta das cinco e sete e saiu uma hora depois, no raiar do dia. Então defendemos o estupro, crime em circunstância que impediu a defesa da vítima.. Enquanto representante do a ministério Público, eu represento a voz de quem não pode falar, de quem não pode se defender. Vejam que a vítima foi encontrada sem as vestimentas inferiores e já tinha histórico de importunação sexual. O Ministério Público também o acusa de ocultação de cadáver porque o réu levou a vítima para uma mata para que o corpo não fosse encontrado. Em apenas dois dias depois, a mata fechada, local úmido, o corpo já estava em alto estado de decomposição. O que a família espera aqui é o que o predador pague pelo que fez, mesmo não trazendo a vítima de volta. O que
pode ser feito hoje é a justiça de forma plena. Nós, enquanto sociedade, não podemos permitir que mulheres morram simplesmente porque os homens as desprezam”, enfatizou a promotora.
Em determinado momento do debate, a fala da representante do MPAL emocionou quem acompanhava cada detalhe do júri.
“Quando a família ainda espera o julgamento, é como se a tampa do caixão ainda estivesse aberta e somente com a condenação, a tampa do caixão será fechada e a dona Cícera enterrada dignamente”, disse a promotora.
Dando continuidade ao debate, a defensora pública Lívia Azevedo que atuou como assistente de acusação, apresentou os vídeos do dia do desaparecimento, catalogados pelos filhos, inclusive o que mostrou o réu empurrando a vítima para o bosque. Ela iniciou a fala destacando a percepção da sociedade sobre vulnerabilidade, em relação à mulher.
“Sempre temos a ideia de que mulheres podem estar vulneráveis e possam ser vítimas de predadores como este, em lugares ermos. Mas, vimos que a dona Cícera foi abordada com o dia claro, com o sol a pino. E percebemos que esse homem, hoje julgado, já havia atuado e, em um mês, conseguiu uma presa. Uma mulher que ele não conhecia, mas não precisava, para exercer o poder de posse e cometer esse crime tão triste num espaço bonito. Tenho certeza de que a sociedade se orgulha desse bosque, mas que agora terá uma lembrança terrível”, afirmou.
Como reflexão, trouxe o poder da família, da sociedade, diante da apatia da polícia, pois mesmo sem ter recebido apoio a família se mobilizou, também mobilizou outras pessoas e foi atrás. Pediu que as mulheres prestem mais atenção, que consigam identificar ao redor delas os predadores, que ficassem em alerta sempre. Deixando claro que eles estão em todos os lugares.
“Quero ressaltar que nem sempre estou na acusação, como defensora estarei defendendo réus, é o papel do defensor, mas hoje estou representando a família da dona Cícera. Nesse caso houve o feminicídio, uma mulher foi vítima de um grande predador. Ele está sendo acusado de praticar violência sexual contra dona Cícera e nega. Mas, embora pelo estado avançado de decomposição, a vítima foi encontrada sem as roupas da parte de baixo. E ele já havia demonstrado que não era um homem bem-intencionado, já havia feito abordagens mostrando os órgãos genitais. Havia a intencionalidade de levar a vítima a um lugar ermo para tirar a sua vida e passou uma hora com ela, dentro da mata, e fica difícil entender porque demorou tanto tempo naquele local com a vítima. Confesso que a primeira coisa que me surgiu à época foi pensar em minha sogra que tem praticamente a idade da dona Cícera e adora fazer caminhada. Eu fiquei aterrorizada”, disse a assistente de acusação Lívia Azevedo.
Réplica
Após a defesa dizer que o Ministério Público estava presumindo que houve estupro, sustentando que o acusado deveria ser julgado apenas por homicídio, pois era réu confesso, a promotora Viviane Farias e a assistente Lívia Azevedo, se apresentaram para a réplica.
“A defesa falou, categoricamente, que o Ministério Público presumiu, ou seja, insinuou que houve estupro. Não, senhores, o Ministério Público não presumiu nada, houve estupro, sim. Quando ele passou a mão na bunda de mulheres enquanto faziam caminhada e mostrou os órgãos genitais, já tinha essa intenção. É uma pena, senhores familiares, que a dona Cícera não possa relatar o que ele fez naquele dia. Não bastasse o modus operandi, tem o tempo que ele passou no mato. Ele passou uma hora com ela. Se ele não tivesse cometido o estupro, por que tirou as roupas da vítima? Isso não se trata de meras conjecturas, meras suposições, lembrando, inclusive , que estupro não ocorre somente com conjunção carnal”, disse.
E para sensibilizar os jurados, para que eles pudessem ter noção da barbárie e não seguirem o discurso da defesa, decidiu mostrar as fotos de dona Cícera Laura.
Pedi autorização aos filhos para apresentar essas fotos aos senhores, porque a defesa nos provocou. A dona Cícera era uma mulher honesta, a sua roupa sequer era sensual, não é isso que costumam afirmar? Que aconteceu a violência porque a vítima provocou? A roupa da mulher não dá autorização para ser alvo , sofrer qualquer tipo de violência. Olhem a roupa que ela vestia, uma bermuda, eu não poderia ficar naquela cadeira sentada, ouvindo a defesa falar que o MP fazia presunção “, falou a promotora.
“O doutor Marcos falou aqui que não houve ocultação de cadáver, mas vou mostrar outra foto aos senhores para que vejam onde ele deixou o corpo da vítima. Um local de difícil acesso, pra dificultar as buscas. Não vou sair satisfeita desse plenário se esse homem não sair daqui condenado pelo três crimes: feminicídio, ocultação de cadáver e estupro. Nada pode ser comparado à dor da família, mas ele precisa ser condenado devidamente”, concluiu mostrando a posição do corpo e a distância em que o criminoso teria jogado a calcinha e a bermuda da vítima.
A assistente de acusação reforçou a fala da promotora: “os laudos não puderam comprovar tecnicamente, porque havia muitas larvas, alto estado de decomposição, e quero que as palavras da doutora Viviane continuem soando na mente dos senhores do conselho de sentença. Ademais, é muito difícil um homem confessar um crime de violência sexual. Nesse caso, ele nega, mas não esclarece a sua justificativa. Mesmo com a vítima despida, mesmo com a posição do corpo, ele negou tudo durante o processo e disse que matou a dona Cícera porque ela tinha um débito com ele, o que nunca existiu, segundo os filhos. A situação da violência sexual, para mim, está mais que escancarada. Infelizmente a dona Cícera não está aqui para confirmar”, frisou Lívia Azevedo.
Ela findou sua participação asseverando: “Espero que os senhores tomem a decisão acertada e que possa deixá-los colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilos”.
Julgamentos femininos
Durante o júri, a promotora de Justiça Viviane Farias fez uma pausa para lembrar como os crimes cometidos contra as mulheres são recepcionados pelas mulheres. Infelizmente, no Brasil, é perceptível posturas machistas, com responsabilização das vítimas, para justificar toda e qualquer crueldade com alguém do sexo feminino.
Pelas redes sociais é possível se deparar, diariamente, com reações que chocam, mulheres contra mulheres, defendendo veladamente os predadores.
Como exemplo, ela lembrou um caso recente e que comoveu a sociedade alagoana. No dia 30 de outubro, a garçonete Joseane Santos de Araújo, de 42 anos, foi estupidamente assassinada enquanto trabalhava.
“Vivemos uma realidade que preocupa, em Santana do Ipanema uma mulher pediu socorro enquanto estava sendo arrastada pelo algoz, em um bar com muitas pessoas, ninguém se dispôs a ajudar, ao contrário, preferiram assistir a violência e filmá-la sendo assassinada. Nas redes sociais, outro dia, também vi que outra mulher foi morta com um golpe de faca no pescoço simplesmente por cobrar a pensão alimentícia, e outra mulher comentou “ela deve ter feito alguma coisa para ele matá-la”, finalizou.
Anderson Gonçalves já tinha passagens pela polícia gaúcha por roubo e porte ilegal de arma e era reincidente no crime de estupro, conforme enfatizou durante a leitura da sentença, o juiz Alberto Almeida, titular da 5ª Vara Criminal da Comarca de Arapiraca e que presidiu o júri.
Apesar da confissão do réu, o que levaria à diminuição da pena, por lei, a dosimetria foi elevada por já te respondido pelo mesmo crime em seu estado de origem.
Fotos: Anderson Macena
