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Agrônomo com raízes na França troca as lavouras convencionais por um projeto orgânico

Publicado em: 18/08/2026 08:30

Nas proximidades de um trecho sinuoso da BR-080, rodovia que liga a região administrativa de Brazlândia ao município de Padre Bernardo, em Goiás, e popularmente conhecido como Sete Curvas, está localizada uma região com várias glebas, onde se ergue uma chapada acima dos 1.300 metros de altitude. É nesse ponto elevado do território brasiliense que o engenheiro agrônomo Jean Philippe Butruille tem conduzido, ao longo dos últimos 15 anos, as operações da Fazenda Colônia, um dos projetos de agricultura orgânica mais consolidados do Distrito Federal.

A trajetória de Jean Philippe, no entanto, começou longe do Cerrado brasiliense. Ele nasceu no Vale do Loire, na região da Touraine, uma das mais tradicionais da França, conhecida mundialmente por abrigar castelos, paisagens históricas e um extenso patrimônio cultural. Ainda adolescente, mais precisamente aos 13 anos, em 1984, desembarcou no Brasil, onde anos mais tarde iniciou a graduação em agronomia na Universidade Federal de Viçosa (UFV), no sul de Minas Gerais.

Já com o diploma de engenheiro agrônomo em mãos, Jean Philippe se dedicou a construir uma carreira como consultor de agricultura convencional, atuando com grandes culturas e agrimensura. A base de sua carreira foi construída em Padre Bernardo, onde estabeleceu um escritório de consultoria que mantém até hoje. À frente do negócio, ele se especializou em oferecer suporte estratégico para produtores, mas sempre carregou consigo o olhar voltado para a sustentabilidade. “Mesmo com a atuação focada na agricultura convencional, sempre tive essa inclinação mais consciente sobre o uso de químicos”, revela.

Foto: Samuel Andrade | Focus Produção de Imagem

Essa visão sustentável, mantida mesmo enquanto atuava em um modelo de produção agrícola baseado na monocultura em larga escala, no uso intenso de máquinas pesadas e na aplicação de produtos químicos, foi o que abriu caminho para a aquisição da área em que atualmente está instalada a Fazenda Colônia.

O projeto começou a ganhar contornos práticos em 2010, fruto de uma estratégia de reinvestimento dos ganhos obtidos em seu escritório. À época, Jean Philippe canalizou parte dos ganhos de seu trabalho para a aquisição gradual de terras na região e contou com o apoio da esposa, Maria Aparecida Ferreira, natural de Padre Bernardo, que se envolveu desde cedo com a atividade. “Por aqui existem várias glebas de aproximadamente 25 hectares. Comprei a primeira delas e, com o tempo, fui adquirindo outras áreas vizinhas até totalizar os atuais 200 hectares”, detalha o produtor rural.

Foto: Samuel Andrade | Focus Produção de Imagem

Após três anos da compra da primeira parte do terreno, Jean iniciou o cultivo orgânico, com foco em raízes, tubérculos e bulbos. O morango entrou no primeiro plantio, ao lado de cenoura, beterraba, alho, cebola, batata, batata-baroa e inhame. No entanto, para viabilizar a produção, o agricultor precisou realizar um rigoroso processo de correção e adequação do solo, transformando uma terra antes destinada ao gado em um campo fértil para o cultivo de alimentos orgânicos.

Mesmo com expertise na área por conta da formação como agrônomo, Jean Philippe buscou, naquele momento, o apoio do Sebrae no Distrito Federal. O que começou como um suporte pontual transformou-se em uma parceria estratégica que está prestes a completar 14 anos e profissionalizou a gestão da fazenda. “O apoio do Sebrae trouxe a base técnica e a confiança que eu precisava para transformar a fazenda em um negócio robusto. É um suporte tão essencial que, até hoje, não fico mais de três ou quatro meses sem consultá-los para alinhar meus próximos passos”, assegura Jean.

Foto: Samuel Andrade | Focus Produção de Imagem

Com o apoio da instituição, a operação da propriedade passou a ser acompanhada em todas as etapas. Jean recebeu consultorias técnicas que ajudaram a estruturar a base operacional no campo e, também, o posicionamento da marca no mercado, com a criação da identidade visual e do logotipo que até hoje são reconhecidos pelos clientes.

Além disso, o Sebrae impulsionou a verticalização do negócio ao auxiliar na estruturação de uma unidade de agroindústria voltada ao congelamento de morangos, agregando valor à produção. O investimento em conhecimento também foi constante, com Jean participando de missões técnicas à Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas (Hortitec), em Holambra, no estado de São Paulo.

“Fui à Hortitec três vezes com o Sebrae para aprofundar conhecimentos, me profissionalizar e interagir com outros produtores. Foram momentos sempre muito positivos e válidos para o amadurecimento da Fazenda Colônia como negócio”, explica.

Durante a pandemia de covid-19, a parceria entre Jean e o Sebrae se mostrou ainda mais importante. Diante dos desafios impostos pela crise sanitária, foi elaborado um estudo de viabilidade para a implantação de um sistema de delivery. Embora o projeto não tenha sido implementado à época por uma decisão de escala, o processo de planejamento permitiu a Jean compreender melhor a logística e o comportamento de consumo direto, fortalecendo sua inteligência de negócio.

O suporte da instituição também foi fundamental para a obtenção das certificações. A mais recente delas foi concedida pelo Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (OPAC-Cerrado), vinculado ao Sindicato dos Produtores Orgânicos do Distrito Federal (Sindiorgânicos/DF), que atesta e certifica sistemas de produção orgânica. O selo de conformidade não apenas validou o manejo sustentável da propriedade, como abriu as portas dos principais varejistas da capital e de outros estados.

Atualmente, dos 200 hectares da propriedade, cerca de 50 são dedicados à produção orgânica coordenada por Jean Philippe e Maria Aparecida. O restante se divide entre área de reserva e terras alugadas a vizinhos.

Dentro da zona de cultivo, o manejo adotado é deliberadamente mais leve do que o de produtores de escala parecida na região. Enquanto outros cultivam de forma intensiva, o casal de produtores mantém boa parte da área sempre em pousio ou em cultura de cobertura. “O solo acaba agradecendo. Fazer muitos plantios sucessivos força um pouco a natureza”, conta Jean.

Foto: Samuel Andrade | Focus Produção de Imagem

Todo o empenho com o cultivo é refletido no escoamento da produção. Hoje, a fazenda é fornecedora-chave de grandes redes como a Oba Hortifruti e a Atacadista Super Adega, além de manter uma parceria com a Fazenda Malunga, para quem Jean fornece produtos específicos, já que a altitude mais elevada de sua propriedade favorece produtos que a parceira tem dificuldade de produzir, como morango, batata, cebola e alho.

O escoamento da Fazenda Colônia também ultrapassa as fronteiras do DF. Enquanto os itens mais perecíveis dominam o mercado local e de Goiânia, a produção de maior escala, como batata, cebola e alho, ganha as rodovias rumo aos centros de distribuição de São Paulo.

Para o futuro, Jean e sua esposa pretendem seguir a mesma lógica de crescimento comedido que marcou a trajetória da fazenda em pouco mais de uma década. Não há pressa por expandir a área plantada, e sim o desejo de profissionalizar ainda mais a operação e reduzir erros ao longo do processo, contanto, é claro, com o apoio ofertado pelo Sebrae no Distrito Federal.

Foto: Samuel Andrade | Focus Produção de Imagem

O casal também já pensa na sucessão do empreendimento e, para isso, buscam familiarizar as duas filhas com essa história. A mais velha, de 19 anos, já cursa agronomia, e a mais nova, de 14, começa a se aproximar do universo da propriedade. “Para mim é muito importante o aspecto família nesse negócio. Isso me motiva bastante”, conclui Jean.

Na avaliação de Leonardo Zimmer, gestor de Agronegócio do Sebrae no DF, a trajetória de Jean Philippe é resultado de uma equação que forma uma base sólida para o sucesso no campo. Essa combinação, segundo ele, garante constância de entrega, fideliza mercados e otimiza a gestão da propriedade.

“São poucos os produtores rurais que conseguem alcançar esse tripé de volume, padrão e frequência, que entendo como a base do sucesso para o agro. Para isso, o Jean precisou ter brilho nos olhos, busca por conhecimento, capacitação constante e profissionalismo. Nessas três frentes, vejo que o Sebrae deu o apoio necessário para a evolução do negócio”, avalia Leonardo.

O gestor também destaca o papel da família na continuidade do projeto. “A esposa entrou em um segundo momento dessa trajetória e hoje já está abrindo o próprio negócio, com uma vertente parecida voltada à produção sustentável. Já a filha mais velha, com interesse na agronomia, mostra como a sucessão costuma acontecer quando os modelos de negócio estão bem encaminhados. O Sebrae ajudou, de alguma forma, para que o Jean chegasse aonde está hoje, e para que ele continue colhendo bons resultados adiante”, finaliza Leonardo.

Fonte: Agência de Notícias do Estado do DF

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