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A 10 dias da votação, TSE desmente boatos sobre voto branco, nulo e uso de IA nas urnas
Uma informação recebida no grupo da família, um vídeo compartilhado nas redes sociais ou até uma história contada por alguém conhecido. Nem todo boato eleitoral nasce na internet e nem sempre uma informação falsa chega acompanhada de sinais evidentes de que há algo errado.
Às vésperas das Eleições 2026, com primeiro turno em 4 de outubro, algumas histórias falsas voltaram a circular, enquanto outras incorporaram assuntos novos, como a inteligência artificial (IA).
Em comum, elas podem provocar dúvidas sobre regras relativamente simples do processo eleitoral. Por isso, separar fato de boato também passou a fazer parte dos cuidados recomendados ao eleitor antes de chegar à urna.
Voto para um cargo não depende dos demais
Um exemplo recente envolve uma mensagem compartilhada em aplicativos e atribuída a um suposto mesário. O conteúdo afirma que o eleitor que votasse para presidente, mas anulasse ou deixasse em branco os votos para outros cargos, teria toda a sua votação anulada. A informação é falsa.
Nas eleições, cada voto é contabilizado de forma independente. Isso significa que o eleitor pode, por exemplo, votar em um candidato a presidente e optar por votos brancos ou nulos para deputado, senador ou governador. O voto válido dado à Presidência continuará sendo normalmente contabilizado.
O contrário também é verdadeiro e deixar o voto para presidente em branco ou anulá-lo não interfere nas escolhas válidas realizadas para os demais cargos. Votos brancos e nulos também não são transferidos para candidatos ou partidos. Eles ficam fora do conjunto de votos válidos utilizados para determinar o resultado daquela disputa.
E se a maioria votar nulo?
Outro entendimento que reaparece em períodos eleitorais é o de que uma eleição seria automaticamente cancelada caso mais da metade dos eleitores anulasse o voto. Também não é assim.
O voto nulo escolhido voluntariamente pelo eleitor não se confunde com a anulação jurídica de votos ou de uma eleição pela Justiça Eleitoral. Mesmo que os votos brancos e nulos ultrapassem 50%, isso, por si só, não provoca uma nova eleição.
Esses votos são registrados nas estatísticas, mas não participam da definição do resultado. Uma eventual nulidade capaz de produzir consequências sobre a eleição decorre das hipóteses previstas na legislação e de decisão da Justiça Eleitoral.
IA pode entrar na urna e mudar meu voto?
O crescimento da IA trouxe uma versão atualizada de outro tipo de boato. Em setembro, a Justiça Eleitoral precisou esclarecer uma publicação que sugeria que, se sistemas de inteligência artificial conseguem ser utilizados em ataques e fraudes digitais, também poderiam entrar nas urnas eletrônicas e modificar os votos.
A comparação desconsidera uma característica fundamental do equipamento que é o fato de que durante a votação, a urna eletrônica não fica conectada à internet, wi-fi, Bluetooth ou rede de telefonia celular. Também não recebe atualizações ou comandos remotos durante o pleito.
Os programas utilizados são preparados previamente, submetidos a procedimentos de fiscalização e lacrados antes da votação. Ao final, cada equipamento ainda emite o Boletim de Urna, documento que apresenta os votos registrados naquela seção e permite a conferência dos resultados.
A inteligência artificial representa novos desafios para as eleições, sobretudo pela possibilidade de produzir imagens, vozes e vídeos falsos muito convincentes. Isso, porém, é diferente de afirmar que uma IA possa entrar remotamente na urna e trocar o voto registrado pelo eleitor.
“Candidatos secretos” e outras histórias
Outro boato de 2026 chegou a afirmar que determinadas combinações de teclas permitiriam revelar “candidatos secretos” escondidos na urna.
A Justiça Eleitoral também desmentiu a história. Não existem combinações capazes de liberar candidaturas ocultas. As urnas são previamente preparadas com os dados das candidaturas registradas para aquela eleição.
Casos como esses mostram uma característica recorrente da desinformação, em que algumas histórias utilizam termos técnicos, supostos relatos de pessoas que teriam acesso a informações privilegiadas ou instruções detalhadas para conferir aparência de credibilidade ao conteúdo.
Uma mensagem atribuída a “um mesário”, “um funcionário”, “um técnico” ou “alguém que trabalha lá”, portanto, não substitui a necessidade de verificar a origem da informação.
Quando a confiança vem de quem compartilha
A circulação de boatos não depende somente das redes sociais abertas. Aplicativos de mensagens e conversas entre familiares, amigos e colegas também participam do caminho percorrido pelas informações.
Pesquisas sobre comunicação política em aplicativos de mensagens têm chamado atenção justamente para o papel da confiança pessoal nessas trocas. Muitas vezes, uma informação ganha credibilidade não porque o destinatário conhece a fonte original, mas porque confia na pessoa que a encaminhou. É uma dinâmica semelhante ao tradicional boca a boca onde alguém recebe, acredita e repassa.
No ambiente digital, porém, essa corrente pode alcançar centenas ou milhares de pessoas em poucos minutos. Uma mensagem originalmente publicada sem qualquer comprovação pode chegar ao destinatário depois de passar por vários conhecidos, acumulando uma aparência de credibilidade que sua fonte original não possuía.
Uma história falsa pode conter partes verdadeiras
Outro cuidado importante é não imaginar que toda desinformação seja completamente inventada.
Conteúdos enganosos podem misturar fatos verdadeiros com conclusões falsas, utilizar imagens reais fora de contexto, recuperar acontecimentos antigos como se fossem atuais ou alterar apenas parte de uma informação. É justamente essa mistura que pode dificultar a identificação.
Nas Eleições 2026, por exemplo, a Justiça Eleitoral já precisou esclarecer conteúdos sobre supostas invasões das urnas durante testes de segurança, diferentes versões do código-fonte dos equipamentos, procedimentos de auditoria e até informações falsas relacionadas à situação cadastral dos eleitores.
Cinco perguntas antes de compartilhar
Não é necessário ser especialista para adotar alguns cuidados diante de uma informação eleitoral.
- Quem publicou? Procure identificar a fonte original, e não apenas quem encaminhou a mensagem.
- Onde mais essa informação aparece? Uma informação relevante sobre as eleições provavelmente poderá ser confirmada em fontes oficiais ou veículos jornalísticos confiáveis.
- Quando aconteceu? Notícias antigas, fotografias e vídeos podem reaparecer fora do contexto original.
- O título corresponde ao conteúdo? Mensagens sensacionalistas podem distorcer o que efetivamente aconteceu.
- Há evidências? Expressões como “me disseram”, “um amigo que trabalha lá contou” ou “estão escondendo isso” não constituem comprovação.
Quando permanecer a dúvida, uma atitude simples que pode interromper a corrente é não compartilhar até conseguir verificar.
Onde conferir
A Justiça Eleitoral mantém a plataforma Fato ou Boato, criada para reunir verificações de informações relacionadas às eleições. Para 2026, a ferramenta foi reformulada e passou a concentrar checagens, orientações e conteúdos educativos.
A iniciativa integra o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral, que reúne mais de 70 instituições públicas e privadas.
O eleitor também pode consultar diretamente os portais do Tribunal Superior Eleitoral e dos Tribunais Regionais Eleitorais para confirmar informações sobre votação, título eleitoral, candidaturas, urnas e regras do processo eleitoral.
Em um cenário no qual qualquer pessoa pode receber e retransmitir uma informação para dezenas de contatos em segundos, o combate aos boatos não depende somente das instituições ou das plataformas digitais.
Entre receber uma mensagem e apertar o botão de compartilhar existe uma escolha. Conferir sua origem pode levar alguns minutos. Evitar que uma informação falsa continue circulando pode fazer esses minutos valerem a pena.