Compartilhar
Ao compartilhar ideias e emoções, as artes cênicas são vetor insuperável de aproximação entre o público e os intérpretes
Entre o palco e a plateia existe mais do que uma história sendo contada. Existe encontro. O ator interpreta, o público reage e, por alguns instantes, os dois compartilham emoções, ideias e experiências. É dessa troca que vive o teatro, uma linguagem artística que, além do entretenimento, contribui para a reflexão, a formação cultural e o diálogo com a sociedade.
Neste sábado, 19 de setembro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Teatro. A data é uma oportunidade para reconhecer a importância das artes cênicas e o trabalho de artistas, companhias, produtores e profissionais que mantêm os palcos em movimento. Em Goiás, a atividade reúne uma trajetória construída por diferentes gerações, grupos, companhias e festivais, com uma produção que se estende da capital ao interior.
Entre as iniciativas que integram esse cenário está a Mostra de Teatro Nacional de Porangatu (TeNpo), evento que reúne espetáculos e artistas de diferentes regiões e contribui para a circulação das artes cênicas no interior do Estado. A realização de atividades como essa ajuda a ampliar o acesso ao teatro e aproximar artistas e espectadores em diferentes espaços e cidades.
A relação entre palco e plateia é, justamente, uma das características que fazem do teatro uma experiência particular. O ator e presidente da Federação de Teatro de Goiás (Feteg), Robson Parente, que atua na área desde 1985, considera essa troca essencial para quem escolhe viver das artes cênicas.
Ele dá um testemunho de dedicação ao ofício: “Fazer teatro pra mim é combustível pra tudo. Eu não consigo me imaginar fora do teatro, fora da produção, fora da cultura”. Para ele, o encontro com o público também é parte fundamental da experiência e afirma que é muito gratificante o encontro com a plateia. “Essa energia que vem do ator e volta do público é uma coisa muito forte.”
Os desafios
Por trás das apresentações, entretanto, existe uma estrutura que nem sempre é fácil de sustentar. A manutenção de espetáculos, grupos e elencos depende de recursos, espaços para apresentação, formação profissional e políticas públicas capazes de dar continuidade à produção.
Parente aponta como um dos principais desafios a dificuldade de manter grupos fixos de atores. Segundo ele, sem uma remuneração capaz de garantir a permanência dos profissionais, muitos artistas precisam participar de diferentes espetáculos para complementar a renda.
Nesse cenário, as leis de incentivo e os mecanismos de financiamento cultural assumem papel importante. Na avaliação do ator, esses instrumentos são fundamentais para a existência de uma produção teatral contínua em Goiás. Ele defende que o poder público trate a cultura como investimento e não apenas como despesa.
A própria trajetória do ator e dirigente ajuda a mostrar como o setor se transformou. Integrante de uma geração que começou a produzir teatro nas décadas de 1980 e 1990, ele lembra que muitos artistas precisavam financiar os próprios trabalhos. Hoje, os mecanismos de incentivo ampliaram as possibilidades de produção, embora, segundo Parente, os recursos ainda estejam abaixo das necessidades do setor.
O fortalecimento das artes cênicas também passa pelo debate sobre políticas culturais. Na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), questões relacionadas ao financiamento, à descentralização dos recursos e à utilização dos espaços culturais estão entre os temas discutidos pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte, presidida pelo deputado Mauro Rubem (PT).
Em maio, a comissão realizou audiência pública para discutir a execução da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) em Goiás e a suspensão do Chamamento Público nº 05/2025. O debate reuniu representantes do teatro e do setor cultural, com a meta de ampliar a transparência, a fiscalização e a participação social nas políticas públicas para a área.
Formar plateias
Se manter uma produção teatral é um desafio, formar e renovar o público é outro. A relação com as novas gerações começa muitas vezes ainda na infância, quando o primeiro contato com um espetáculo pode permanecer na memória por muitos anos.
Parente lembra que, especialmente a partir da década de 1990, iniciativas de teatro nas escolas contribuíram para aproximar crianças das artes cênicas. Na percepção dele, parte desse público volta a frequentar espetáculos na adolescência e na vida adulta, contribuindo para uma renovação constante da plateia.
A formação de público, porém, não significa apenas colocar espectadores diante do palco. Também exige que o teatro dialogue com diferentes gerações e encontre linguagens capazes de estabelecer comunicação com públicos diversos.
Para o dirigente, essa relação precisa ser de mão dupla. O artista leva sua criação para a plateia, mas também precisa estar atento às características de quem está do outro lado do palco. A experiência vivida na infância, segundo ele, pode permanecer como uma referência afetiva e cultural para toda a vida.
Diferentes vozes
Ao longo das últimas décadas, o teatro também acompanhou mudanças na sociedade e passou a incorporar novos públicos, temas e perspectivas. Hoje, a plateia reúne diferentes experiências, visões de mundo e grupos sociais.
Robson Parente observa transformações nesse percurso e avalia que os mecanismos de incentivo cultural também influenciam a produção. Na visão dele, critérios utilizados na seleção de projetos podem interferir nas possibilidades de criação e, em alguns casos, levar à rejeição de trabalhos que considera importantes. Ele chega a classificar algumas dessas situações como uma espécie de “censura velada”.
A afirmação representa uma avaliação pessoal do artista sobre os processos de seleção e financiamento. Ao mesmo tempo, reconhece que o teatro passou a dialogar com uma diversidade maior de públicos, incluindo pessoas com deficiência, pessoas negras, pessoas trans e travestis, além de diferentes grupos geracionais e perfis de espectadores.
Essa ampliação do acesso também provoca mudanças na própria produção. O desafio passa a ser construir espetáculos capazes de dialogar com públicos diferentes sem abrir mão da liberdade artística, da experimentação e da capacidade de provocar reflexão.
Teatro acessível
A preocupação com a inclusão alcança também a acessibilidade. Recursos como interpretação em Libras e audiodescrição permitem que pessoas com diferentes necessidades possam acompanhar as apresentações e participar da experiência teatral.
Parente aponta que a acessibilidade passou a ser considerada desde o planejamento de muitas produções. A interpretação em Libras, segundo ele, já está mais presente nos espetáculos, enquanto a audiodescrição ainda encontra maiores dificuldades para ser incorporada.
A inclusão pela arte também alcança a população idosa. Em julho deste ano, Goiás instituiu, por meio da Lei nº 24.423, a Política Estadual de Fomento à Arte e à Cultura para a Memória. A iniciativa busca promover e preservar o legado cultural do Estado por meio de atividades artísticas, estímulo cognitivo e expressão cultural para pessoas com 60 anos ou mais.
Entre as possibilidades previstas estão oficinas de pintura, música e teatro, exposições, apresentações e parcerias com instituições. A proposta amplia a compreensão da cultura como espaço de participação e inclusão ao longo de diferentes fases da vida.
O dia 19 de setembro também é marcado pelo Dia Nacional do Teatro Acessível, instituído pela Lei Federal nº 13.442/2017. A coincidência das datas reforça uma discussão que vem ganhando espaço nas artes cênicas: não basta produzir espetáculos, é preciso ampliar as possibilidades de acesso a eles.
Espaço cultural
A relação entre teatro e sociedade também passa pela ocupação de espaços públicos. O Palácio Maguito Vilela vem sendo utilizado como espaço para apresentações e manifestações artísticas. A própria Assembleia Legislativa já recebeu festivais e atividades teatrais.
Em 2023, o Parlamento sediou a primeira edição do Festona – Festival de Teatro Ocupa Novo Ato, com reunião de companhias de diferentes partes do Brasil e a participação de um grupo de Lisboa. A iniciativa levou a linguagem teatral para dentro da sede do Poder Legislativo e aproximou artistas e público em um espaço que também recebe outras manifestações culturais.
No fim das contas, talvez esteja aí uma das forças do teatro: a capacidade de criar encontros. No palco, uma história ganha corpo. Na plateia, ela encontra outras histórias, memórias e maneiras de enxergar o mundo.
Quando as luzes se apagam e o espetáculo termina, alguma coisa permanece. Pode ser uma pergunta, uma emoção, uma lembrança ou simplesmente a vontade de voltar. O teatro não termina necessariamente quando a cortina fecha. Parte dele segue com quem esteve ali.